Hoje, nesta segunda-feira, o mês de julho quase fecha os olhos, inverno mostrando um cachecol e um grosso capote de lã felpuda tentando agalhar o ano que entra ao meio de um frio que até no presente momento mal começou, amanheceu, nesta hora ainda cedo, não tanto quanto as horas costumeiras quando aqui compareço, neste pós feriado, penso que muitos irão emendar até na próxima quarta-feira, a semana quase é mutilada por inteiro, imagino como está a minha querida Zaninha.
A esta hora madrugada ela deve estar saindo de casa, num bairro distante, pertinho da casa onde ela e seu amado parceiro construíram e ela deixou aquela linda morada aos cuidados daquele a quem amava tanto, e ainda o ama, com certeza.
Agora parece que o sol voltou a brilhar. Já sinto calor. Mantenho as persianas cerradas. Caso contrário o sol entra em saraivadas sala adentro. Ofuscando as minhas retinas. E, ao mesmo tempo, turva as paredes espelhadas do meu aquário. Onde apenas um peixinho solitário na manhã de hoje me saudou com um bom dia borbulhante.
Eu, nesta aurora boreal de minha existência, passei a me acostumar com muitas coisas e loisas.
Aquieto-me ao meu canto. Embora não tenha a capacidade de agradar a ninguém com meu canto. Espero que meu próximo livro seja do agrado de muitos leitores.
Não me acostumo à falta de educação e incultura que muitos brasileiros e brasileiras aqui vivem, à margem de uma sociedade consumista, que paga uma heresia por um saco de ração pra cachorro, e torcem o narigão ao ver a miséria que campeia país afora. Com muitas crianças sem pais dormindo ao relento, sem escolas onde deveriam estar, sem afeto que muitos deveriam a elas endereçar, sem poder, sequer, sonhar com aquele brinquedinho que muitos riquinhos usam e estragam, são jogados no balde de lixo, quando deveriam ser doados àqueles que deles precisarem.
Jamais me acostumarei, não com o calor sufocante que grassa no hemisfério norte, e sim com a miséria que a gente constata, pessoas sem teto dormindo debaixo de viadutos, enquanto endinheirados pançudos mandam fortunas em direção a paraísos fiscais, navegam oceano afora em belos iates, e fecham as mãos e os olhos à pobreza reinante em nosso Brasil continental.
Não me acostumo nunca. Com a falta de solidariedade que por vezes impera. Já vi pessoas lindas por dentro, e feias por fora, pobretonas, em mutirões tentando retirar dos escombros amontoados em favelas, depois de desabamento de barracos, gente soterrada, debaixo de tijolos, concreto feito às pressas, na intenção solidária de edificar construções para que gente, não como a gente, que felizmente fomos aquinhoados com a benesse de termos nascido em berços doirados, e não tivemos a desventura de viver à margem desta sociedade tão díspare.
Antes, infância perdida no esquecimento, quando um cãozinho, amigo, desaparecia, chorava e pedia outro à minha saudosa mãe.
Agora, a mesma infância cedendo espaço à decrepitude da idade provecta, estou ansioso pela volta do meu querido Del Rey desaparecido. Tomara não o encontrem morto. Ou gravemente ferido por um Java porco, espécime de javali encontrado, tantas vezes caçado, nas bandas de minha rocinha encantada.
Já me acostumei com tantas coisas…
Pena que nunca irei me acostumar com a falta de inspiração. Quando ela me abandonar, por certo, melhor nem aqui estar.
Tenho um amigo, pertinho de onde as minhas vacas pastejam, Binho, cujo nome verdadeiro é Robson, gente fina, embora seja um cadinho gordinho, jovem ainda, de riso fácil, falante e amistoso, isso quando não lhe pisam na joanete, ele trata aquela protuberância óssea como janete, que, nesta hora, não tão cedo, já deve ter tirado leite, lavado as ordenhas, junto ao seu amado pai, Roberto, e sua não menos amada mãe, dona Lúcia, para esperar um cadinho para ir de moto à minha casa linda à beira da represa do Funil.
Binho é um faz tudo. Jardineiro neófito no assunto. Pedreiro aprendiz. Retireiro embrulhão. Cuidador do meu querido Del Rey, que anda sumido, mas logo deve voltar ao meu abraço.
Zelador de piscina. Que sempre, quase, se mantém da cor de azul piscina limpa. Aparador de gramado. Com sua roçadeira de cortar grama. De lâminas afiadas como a língua de uma tal de dona Maria. Barqueiro que não sabe nadar. E outras virtudes e defeitos que não me cabe enumerar.
Noutro dia, não sei quando foi o acontecido, quando apeei da minha pratinha valente à porta da porteira de sua casinha amarela e azul, cenário do meu romance Madest, ele veio até mim, com aquele aperto de mão de fazer estalar ossos, e esperou de minha boca as palavras, ou instruções, as quais deveria seguir naquele sábado o qual ignoro quando foi.
Estava um frio gelado. Até a sua galinha carijó, que botava ovos caipiras debaixo da bananeira que já deu cacho, continuou escondidinha enrolada no ninho, cantando cocoricó.
Foi quando a ele disse: “Binho. Não sente frio”?
Já elezão, embrutecido, mas não bruto, respondeu envaidecido: “ah! já me acostumei a tantas coisas que nem ligo. Mas, se pisarem na minha janete. Aí sim. Solto a cachorrada nos bandidos”.
Já eu, de tanto contar inverdades, inventar causos, contar vantagem, nos meus escritos, confesso. Não me acostumarei, jamais. Se, por acaso, num descaso para comigo, um dia deixar de editar livros, escrever, não sei o que vai ser de mim.