E é exatamente isso que tenho feito desde quando atingi certa idade.
Aposentar-me, por completo, never…
Ainda estou em plena atividade. Pensando bem, antes, há vinte anos atrás, não passava pelas minhas ideias ser escritor.
Ainda me lembro que, quando garoto, não aquele que amava os Beatles e os Rolling Stones, me perdia entre letrinhas miúdas, aquelazinhas escritas num caderninho pautado, no qual a professorinha que me ensinou o baba fazia corrigendas em vermelho, e, ia eu todo envergonhado mostrar aos meus pais, inseguro, sem saber qual seria a reação principalmente do meu pai, cuja sabedoria subia às alturas, de um prédio mais alto que este onde agora me encontro.
Quem se recorda de sua pessoa letrada, bancário de vocação, advogado na aurora de sua existência, melhor que eu bem sabe o quanto ele escrevia corretamente as suas petições.
Pena que Deus o levou prematumante ao seu lado.
Penso, embora não saber o que nos espera do outro lado da vida, só sei que nada sei, Paulo José de Abreu presta serviços de advocacia, escrevinhando textos eloquentes, na sua Facit cinza, que agora descansa sobre uma mesa branca no meu escritório numa sala feericamente iluminada olhando saudosamente o meu passado. Vivido recheado de saudades tantas daquela rua que daqui se avista à mão esquerda.
Aproveita!
Foi com esta mesma expressão, dita em exclamação, num misto de emoção e tristeza, que assim me fiz acompanhar, por uma pessoa já conhecida.
Foi exatamente uma hora antes do almoço.
Disse a minha esposa: “Rosa. Vou andando até a casa de um velho amigo. Gostaria de submeter a ele um texto escrito na manhã deste domingo. De lá lhe comunico, pelo celular, se volto ao apartamento ou a espero à porta do restaurante”.
Foi dito e fito.
Cheguei àquela residência numa ruinha estreita. A mesma que usava frequentar a cada dia.
Este homem, ao qual admiro como se fora uma estrela inatingível, meu revisor, prefaciador de um dos meus livros, por muitos desconhecidos, entendedor não só da alma da gente como de pura literatura, professor, espírita, espírito de alma iluminada, o qual palestrava num centro espírita pertinho do meu consultório, foi objeto da minha visita neste domingo de céu claro como amanheceu neste vinte e quatro de julho.
Há tempos não o via. Ao revés de todas os dias quando tocava a campainha da porta de sua casa.
Quem mo atendeu e abriu o portão, depois de alguns minutos de espera, sem me ter feito anunciar, foi seu filho Claudio.
Ele me pediu que assentasse a um sofá amarronzado. Na sala de visita de sua residência.
Numa salinha anexa espreguiçavam sonolentos seus livros. Embora tivesse presenteado àquele amigo professor, uma das maiores autoridades brasileiras em Machado de Assis, creio que com todos os meus livros, ao percorrer a estante com meus olhos não vi nenhum de minha lavra.
Depois de nos emocionarmos, ambos, a emoção tomou conta de nossos âmagos sensíveis, e lágrimas escorreram-nos pela face.
Foram minutos que passaram frenéticos.
Já era hora de subir a rua. Minha esposa esperava o meu chamamento.
Correções foram feitas. Anotei todas elas com uma caneta bic.
No átimo da partida, quando me encaminhei rumo à porta, foi seu filho Claudio, trazendo a chave no bolso, disse-me, numa mistura de tristeza e nostalgia.
“Aproveita, doutor Paulo. Meu pai, o professor Russi, está por um fio. Seu coração bate e quase para”.
Fui subindo a rua, pensando, cabisbaixo.
Aproveito sim. Não o passamento do querido professor Antônio Russi. Aproveitarei sim. A cada dia. A cada nascer do sol. A cada apagar de uma estrela. A cada desabrochar de uma flor.
A todos os momentos que tive a felicidade deste rico convívio, com o senhor.
Um grande abraço professor Antônio Russi. Se, por acaso, um dia for privado desta convivência enriquecedora, como a de meu pai, que Deus o tenha bom lugar.
Esta visita da data de hoje não será nem a última nem a primeira.
O senhor em verdade é imortal. Sua sabedoria, sua aura, seu semblante sereno, bem retratado nesta fotografia, que agora faz parte dos arquivos do meu celular, vou aproveitar para sempre. Enquanto eu aqui perdurar…