Muitos dizem: “se entre amigos encontrei cachorros, entre cachorros encontrei-te, amigo.”
Eles, aqueles bichinhos peludos, ou desprovidos de pelos, de várias raças e tamanho de focinhos, vira-latas, e de acentuados pedigrees, muitos são tratados pelas madames melhor do que crianças desprovidas de afeto e lares para viver, não restam dúvidas que eles são fiéis e devotados.
Mas, no entanto, puxando pelos entretantos, muitos destes amigos verdadeiros, não por suas próprias culpas, fato notório de que eles um dia crescem, as suas fezes cheiram mal, não tanto quanto as nossas, depois de velhos, decrépitos, muitos deles perdem a visão, acabam manquitolas, quando, alegremente pensam que vão dar um passeio com os donos, entram no carro, abanando o rabinho, olhando pela janela com o vidro aberto, na poltrona da frente, de repente, não mais que num repente, o dono para o auto. Não para que elezinho faça xixi.
E sim, uma vez à beira de uma estrada, num local ermo e vazio, seu dono, a quem devotou tanto carinho e fidelidade, por anos e anos a fio, a pessoa em que mais confiava acaba a viagem curta, abandonado na estrada, mal sabendo a triste sina que a ele agora lhe está reservada.
Pra quem não conhece o Del Rey eu lhes apresento nesse trecho do meu escrito.
Del Rey foi comprado de uma ninhada de não sei quantos irmãozinhos. Por ele paguei, penso, ter sido uns trezentos reais.
Ele tem a idade da minha casa à beira da represa do Funil.
Contabilizando anos por volta de sete ou oito.
Ele foi criado num canilzinho improvisado nos fundos da casa de um pedreiro, numa casinha tosca onde morou a prole de um sitiante falante chamado João Pereira. Hoje, infelizmente, já subiu às estrelas. Creio ter sido bem tratado por ele.
Del Reysinho a princípio, quando em mim depositou aqueles olhinhos inquiridores, só faltou dizer: “meu amigo. Eu o escolhi para ser meu dono. E não abdico da sua amizade e espero o senhor não abdicar da minha”.
Retribuí à sua fala pensando comigo mesmo – eu também. Jamais irei abandoná-lo numa casa de cães idosos.
E o Del Rey cresceu. Espichou. Engordou.
Quem dele cuidava, não só o alimentando, como também lavando as cacas do seu canil, feito com todo capricho pelo amigo, este sim, pedreiro de colher inteira, o Cumbuca, marido da simpática Rosana, era o filho mais jovem do Roberto, arrendador do meu pasto sujo, que agora nem parece aquilo que deixei em suas mãos.
Meu fiel amigo teve alguns percalços na sua vidinha de solteirão.
Bernes sanguessugas se apropriaram de seu sangue quente de um vermelho estonteante, fizeram de sua carne macia as suas moradas, e, não por falta de cuidado, acabaram por formar bicheiras profundas em sua pele macia.
Por duas vezes tive de interná-lo aqui, numa clínica veterinária, onde ele passou alguns dias internado. E dali saiu bem melhor de quando entrou.
E assim percorria nosso destino.
Quando eu chegava, na minha pratinha valente, a minha rocinha encantada, logo ia ver como estava de saúde o não tão velho amigo.
Abria a portinhola improvisada da sua moradinha, e ele saía contente para uma volta comigo.
Não precisa dizer que ele ia adiante. De repente parava. Olhava para trás, e, naquele momento percebia, pelo seu olhar, o quanto ele me amava.
Del Rey não se sentia confortável vivendo como eremita. Faltava-lhe uma companheira. O amor que a mim ele dedicava era um amor diferente. Nunca iríamos nos cruzar. Imagino a porcaria que iria nascer daquele nosso consórcio.
Uma cria de um pastor alemão capa preta com um médico urologista metido a escritor seria um desastre inimaginável.
Nos tempos de agora Del Rey não parava naquele canil já precisando de uma reforma urgente.
Ele passou a morar na casa do amigo Roberto. Vivia no curral em meio aos bezerrinhos sempre famintos. Creio que ele até aprendeu a berrar de tanta convivência saudável e de tanto leite derramado estômago abaixo.
Sempre que eu chegava, via de sempre aos sábados, o meu amigo corria atrás da minha caminhonetinha prateada até a minha linda casa beira represa do Funil.
Era uma festa o nosso reencontro.
Acontece que, neste sábado que a folhinha engoliu, ao parar na casa onde mora o amigo Binho, do peito e do coração, procurei pelo Del Rey e não o encontrei. Encontrei sim, um novo amiguinho, um fila filhote de boca preta, presente de um amigo recente que mora pertinho da linda Macaia, o qual nomeei de Clo. Em honra e glória de outro amigo de duas pernas e pau pra toda obra.
Pra quem não conhece o pintor de paredes Clodoaldo, bem que ele poderia perfeitamente pintar telas tão lindas como as de um tal Picasso, acabo de lhes apresentar.
Ele entende e palpita sobre quase tudo. E em verdade entende sim. Faz serviço de bombeiro encanador sem nunca me ter enganado. De eletricidade entende mais que a Cemig. Tem uma mala de ferramentas que nunca perguntei o quanto ela pesa. Decerto bem menos que nossa amizade.
Voltando ao assunto Del Rey, se não irei me alongar muito, ao chegar no dia de ontem à rocinha que tanto amo, cadê o outro amigo de quatro patas?
Assim que apeei na porteira da minha morada, por mim nomeada de Solar Paulo da Rosa, deixei os amigos entregues à sua faina redobrada, em ordem de importância nomeio: o filho do Clo chamado Robson, o outro filho, desta vez filho adotivo, deveras ele nasceu do útero da bela Amanda, um velho jardineiro, que só cuida de jardins de ricos e abastados, não tem quem se rivalize com sua competência e zelo no trato com as flores, Gilson, e minha querida Rosa, com os espinhos recolhidos, fui até o pastinho onde moram meus dois cavalos.
Levei um balde cheio de ração para que eles me acarinhassem e permitissem colocar um deles sob freios. Foi a égua Santa Rosa a escolhida.
Foi então que começou o meu périplo a procura do Del Rey. Até postei uma foto dele no Face de ontem a noite.
Iniciei a minha cavalgada pela linda chácara do amigo Serginho. Professor de tênis e dono de um posto de gasolina mais ao alto da cidade. Ele ali estava. Creio que solitário. Sem a sua amada esposa Petrina. Não apeei da Santa Rosa. Apenas indaguei se ele sabia do paradeiro do amigo Del Rey.
No que ele dissesse não voltei a outra propriedade à procura do meu amigo peludo.
Foi desta vez sorteada a fazendona do Zalem.
Ali comecei a perceber o significado da palavra ABANDONO.
Não se vivalma viva o morta naquela linda fazenda com a qual divido as minhas terras. Não tive a quem perguntar se o Del Rey houvesse latido por lá.
De novo no lombo meio escuro da égua. A trote não macio como do outro cavalo chamado Theo.
Desta feita entrei pela estrada poeirenta que me levaria a outra estrada. Aquela que iria desaguar na ponte do Funil. Que agora repousa no fundo da represa de mesmo nome. A fazenda de um velho amigo, juiz aposentado da profissão e da vida, culto e voraz leitor não só de leis e literatura, Jaziel Carvalho, me pareceu entregue às mãos do abandono.
Agora esta fazenda, onde antes se fazia rapadura e açúcar mascavo, estava de porteiras fechadas e quase em vias de se tornar um matagal denso e intransponível, penso ali existir onças e cobras sucuris. Na casa antes verde de novo perguntei a ninguém se sabia se o cão Del Rey não havia passado por lá. Não tive eco ao meu chamamento.
Votei, não sem antes parar para apertar a barrigueira da sela que estava afrouxando.
Sempre com meu celular apertado no bolso da minha calça azul com listas brancas.
A próxima visita foi no sítio do velho amigo Geraldo da Dona Nega. Com quem aprendi o por que de mesmo a vaca sendo preta o leite sai branquinho de suas tetas.
Encontrei-o adoentado. E como gosto dele. Foi um encontro entre velhos amigos e compadres.
Suas mãos tremiam e meu coração quase chorava. Tenho uma fotografia nossa no meu celular. Prometi tentar não apenas remediar suas dores como atenuar-lhe o sofrer. Tomara eu consiga. Oxalá.
A procura do Del Rey, até no presente momento, não encontrava eco. Apenas a palavra abandono ressoava em meus ouvidos.
Sem alento, sem perspectivas de encontrar Del Rey, já com a barriga roncando, pois, lá embaixo, no beira lago, minha esposa já preparava um delicioso manjar dos deuses, macarrão com frango delicioso, fui cavalgando pela estrada, olhando pra cima, voltando os olhares pra baixo, até chegarmos ao sítio do amigo, outro Geraldo, aquele da Vitória Decorações.
Mais uma vez neca de pitibiriba do meu cão Del Rey.
Ainda não desisti de encontrá-lo.
Espero que nosso reencontro não se dê no céu.
A procura do Del Rey mal começou. Creio que, ao revés, tenha começado muito bem.
Aguardo, com certa ansiedade, manifesta nessas bem traçadas linhas, que alguém o tenha encontrado. E trate bem dele como o Binho sempre cuidou.
Del Rey, onde você estiver, ouça o meu apelo. Já que você não sabe ler pelo menos sinta o latido de saudade que hoje, neste domingo, vinte e quatro de julho, nutro pela sua pessoinha fiel. Companheira amistosa, coisas e loisas que só um verdadeiro amigo sabe e bem o conhece de cor e salteado.