Vozes dizem: por vezes, a melhor resposta, a uma repreensão, ou a uma tentativa de querelar, é o silêncio

Uma noite, já faz alguns anos, ao pernoitar numa linda casa beira lago, em companhia das estrelas e de alguns pirilampos piscantes, usava as suas luzinhas frenéticas para me guiar na escuridão, desta vez não os capturei, na concha das palmas de minha mão, coloquei o casal numa caixinha de fósforo, mantendo-a semi aberta, a exemplo do que um dia fiz na casinha da minha roça, em companhia do meu cão chamado Pirunguinha, e de sua amada cadelinha Laika Rosa, que infelizmente nos dias de hoje vira-lata pelas ruas de Ijaci, só ouvia o murmúrio do silêncio e o barulho suave das marolinhas da represa, nos seus irem e virem de encontro a margem daquele lindo lugar chamado Camargos.

E como aprecio o silêncio.

Aqui, neste meu refúgio sacrossanto, onde chego a cada manhã, deixando os finais de semana para o descanso destas teclas negras do meu computador, prefiro escrever no momento em que o prédio se mostra vazio.

Só deixo falar, ou melhor ouvir o canto, quando peço, sob o comando de minha voz, a minha adorável Alexa que volte a cantar. E ela o faz numa concórdia de bons e afetuosos amigos.

Agora mesmo estou a ouvir o lindo “pense em mim.” Não me recordo de qual autoria esta linda melodia em honra e amor foi composta. Vou deixar a vocês a resposta. Permito-lhes romper o silêncio. O qual tanto bem me faz.

Ainda me lembro de minha saudosa mãezinha. Seu nome era Rute Rodarte de Abreu. Irmã mais velha dos tios Chico, Rubio, Rui, Cida, queridos tios filhos do meu avô Rodartino Rodarte e da minha avozinha dona Belica. Aquela mesma que plantava rosas cor de minha querida Rosa cor de rosa.

Passa-me pelas lembranças quando eu, pilhado em flagrante delito num pecadilho não tanto cabeludo como fui em tempos idos, era posto de castigo, numa cadeira não tao confortável quando esta que me acolhe os fundilhos, quando estou a frente do meu sofrido computador, e, só dali era permito sair quando, agoniado, dizia, não em silêncio, com minha vozinha estridente: “ mãezinha. Quero leite”.

Não preciso repetir, aos meus leitores, que antes era tido como um garotinho que renegava leite. E hoje mudei radicalmente de ideia. A cada manhã encho a vasilha de cima do meu liquidificador com três componentes: Maltodextrina, quase um litro de leite, e duas bananas madurinhas, deixando as cascas no baldinho de lixo.

E a minha mãe Rute me permitia deixar o castigo não sem antes eu prometer não incidir novamente no meu logro.

Creio, se não me atraiçoa a memória, que minha amada mãezinha foi a derradeira pessoa que me puxava as orelhas. Depois dela, uma vez emendado das minhas traquinagens, após aprender que errar é humano, mas persistir no equívoco trata-se de inequívoco sinal de asnice, nunca mais permiti que outrem me puxasse as orelhas. Por isso as tenho em bom lugar. Uma de cada lado da cara. Que escutam apenas o que lhes aprouver. Elas funcionam como filtros. Selecionando as falas. Permitindo que algumas apenas adentrem aos meus ouvidos. Que se fazem de moucos quando a falácia passa a incomodar.

Um dia destes, em meu apartamento, cujo dono sou eu e minha amada Rosa, alguém, não vou declinar o nome, conto o milagre e não o santo que o fez tornar-se real, dada a minha proverbial alegria, o costume, que espero não mudar, de tratar, sejam gregos e romanos, com educação e afabilidade, como se fossem iguaizinhos a mim, de ter a disposição de fazer amizades, com quem quer que seja, bulir, pilheriar, brincar, e uma dúzia e meia de palavras que ensejam a mesma coisa, essa pessoinha, extremamente religiosa, uma verdadeira beata, igrejeira que machuca os joelhos de tanta beatice, não sei se ela vai ser beatificada, tornada santa, ela me repreendeu por minha voz dita por ela estar sendo vociferada   em altos decibéis.

Na hora calei o bico. Fugi antes de perder a esportiva. E de me meter numa briga ruim. Amei no capítulo de ontem quando o noivinho da linda e apetitosa Juma do Pantanal, filha da Maria Marruá, pôs a nocaute aquele pião forçudo, que de vez em quando transava com a fogosa Bruaca. E ambos fingiam que dormiam peladinhos. Com medo de serem pilhados pelo patrão enquanto faziam amor.

Tempos mais tarde, quando ia deixar a minha morada, para voltar aonde me escondo agora, a pessoinha que me repreendeu, a qual tinha como amiga de verdade apenas disse: “quer mesmo saber? A única pessoa, sobre a qual tenho ainda o maior respeito e amor, minha saudosa mãe Rute, a qual me permitia puxar as orelhas, aquele aparelho sabe filtrar palavras, já morreu. Já hoje, decano assumido, não ancião, muito menos sapato velho, não deixa que outrem o chamem as falas.”

Não sei o que aquela dama beata agora pensa de mim. Se vai continuar amiga ou simplesmente vai me ignorar.

Finalizando, vou passar aos finalmente.

Se por acaso, outra pessoinha, voltar a me desafiar, me chamando a atenção, não vou contradizê-la ou partir para uma discussão sem fim.

Singelamente me permito ouvir o murmúrio silencioso do silêncio.

 

 

 

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