Em letras maiúsculas, minúsculas, manuscritas, o seu nome teclado num computador, escrito à pena num papel pergaminho, com aquelas letrinhas tortas, escritas num caderninho pautado, como aprendi a escrever, ou, segundo o livro santo diz, em seus inspirados versículos: EXALTADO ESTÁ O SENHOR ACIMA DE TODAS AS NAÇÕES, E A SUA GLÓRIA SOBRE OS CÉUS. QUEM É COMO O SENHOR, NOSSO DEUS, QUE HABITA NAS ALTURAS? O QUAL SE INCLINA PARA VER O QUE ESTÁ NOS CÉUS E NA TERRA.
Segundo a Bíblia Deus é o espirito. O criador da luz e da humanidade. O pai de Jesus.
E como vejo Deus? Essa entidade, cuja capacidade não tem similares.
Um dia, tempos se vão, testando meu aparelho de ultrassom novinho, por aqui passou um casal simpaticíssimo.
Ela estava embarrigada. No derradeiro mês de gestação. A protuberância que se mostrava naquela senhora linda, olhos da cor verde mar calmo, era vista a olhos desvestidos.
Não havia ainda colocado nenhum paciente sob o lume daquela máquina que faz maravilhas. Ela entra adentro do corpo humano, não exclui os animais ditos irracionais, perscruta-nos as entranhas, permite ver como anda a saúde dos nossos órgãos internos, sem que nos fira a pele muito menos a sensibilidade, e como a tenho à flor da pele, e hoje se trata de um exame dito de imagem, o pontapé inicial para começarmos o diagnóstico que tanto aflige os nossos queridos pacientes.
Naquele meio da tarde, quase final do meu expediente, ao colocar aquela linda grávida sob o foco do meu ultrassom, pela tela daquele computador, diferente deste onde escrevo, percebi, maravilhado, um pezinho, um coraçãozinho palpitando, uma cabecinha já formada, duas mãozinhas se mexendo, duas perninhas tentando caminhar, ainda era precoce, e, assim que fixei os olhos na tela daquele mesmo computador, que mostrava imagens pra mim nítidas, vi, entre assombrado e incrédulo, um diminuto pênis indicando que aquela cria seria um machinho.
Foi neste exato momento que a figura de Deus pai se fez presente. Não somente passei a acreditar na presença de uma força superior como, da mesma maneira, passei a crer nele, embora não duvidasse da minha descrença. Deus pra mim sempre existiu.
Como sempre ando pelas próprias pernas. Se um dia me perguntarem se desejo trocar minha pratinha valente, aquela caminhonetinha prateada, sempre estacionada defronte ao meu prédio, aqui pertinho de onde escrevo, se quero trocá-la por um veículo mais novo, que tal um zero quilômetro, logo respondo: “o senhor não tem um par de pernas novas para vender?”
Um dia, quando morava no condomínio, onde murtas soltam flores de tempos em tempos, onde passarinhos fazem seus ninhos, onde impera a calmaria de um mar tranquilo, onde crianças são criadas soltas pelas ruas, ao descer a rua, como fazia dantes, à hora quando o padeiro madrugão solta pães quentinhos, de vez em quando passava pela igreja matriz.
Não tenho o costume, salvo quando meus pais ainda viviam, de ir à missa. Se o fazia logo, quando, o padre dizia: “vão em paz. O senhor os acompanhe”, eu, menino peralta, corria em direção à praça principal. Foi lá, no rela do jardim, naqueles vai e voltam, elas no sentido horário, nós, moleques com a cara cheia de espinhas e cravos, no sentido reverso.
Foi ali mesmo que conheci a minha amada Rosa (a estilista flor mulher, batizada por Rosemirian).
Naquela igreja, que ao meio dia e as seis das tardes executa a Ave Maria, e os sinos dobram, ali parava solitário. Orava aos santos e as suas imagens. Pedia ao bom Pai, de Jesus, que me consolasse nas horas de aflição. Perdia ao bom Deus que protegesse de todo mal a todos, indistintamente, fossem abastados ou desprovidos de recursos. Que ELE, em maiúsculo, guiasse minhas passadas até um porto seguro.
Hoje, anos depois, agora que me sinto não velho como aquele sapato furado na sola, sem dar meia sola, e sim um ancião que ainda se sente um menino, igualzinho aos meus três netinhos, percebo a presente de Deus no verde das árvores, no grito estridente das maritacas em busca de jabuticabas maduras, no jacu piando, na galinha cantando anunciando a postura de mais um ovo, no voo do urubu, com suas asas negras plainando serenamente nas alturas, na algaravia dos pardais naquele pinheirinho verde no jardim da igreja presbiteriana, no mugido da vaca de saudade dos seus bezerrinhos sempre famintos à espera da ordenha da tarde, no farfalhar frenético das asas de um beija-flor que para no ar como um certo jogador de futebol, glória do clube atlético mineiro, no abraço, que se transformou num laço apertado que não se desata nunca, no amor filial, que um filho deveria sentir pela mãe, muitas vezes ausente, depositada numa casa de idosos por não ter quem cuide dela, no momento em que ela mais precisa, na luz que de repente escasseia, por uma falha no sistema de iluminação das cidades, seja por um curto circuito qualquer, pela queda de um raio, de um trovão que ronrona, na alma lírica de um poeta, de um trovador, de um verso do qual se ignora o reverso, enfim, de tudo, um tudo que de repente se torna um nada, um reles devaneio, uma chuva que cai, e como as chuvas são benvindas nestes tempos empoeirados, a presença de DEUS a sinto em todas as coisas e loisas.
Se me perguntarem onde vejo Deus. A resposta é simplesinha.
Vejo-o sempre. Em todos os lugares. Penso até que foi ele quem ditou este texto que agora acaba de nascer.