Quem já não viu uma pessoa, assentada à máquina de costura, costas vergadas sobre ela mesma, desafiando o tempo, já que tantos contratempos se interpuseram sobre ela, filhos cangurus ainda dependentes, alimentando-se às custas de caraminguados mínimos, se ainda não viu, pensa em ver.
Eu tenho assistido, parte, quase a totalidade de minha vida, a uma pessoinha maravilhosa, costurando, bordando, arrematando, cerzindo, pregando botões e não peças, naquelas máquinas de costuras modernas ou antigonas, alinhavando, sendo ela, a minha querida Rosa, uma flor de mulher, pequenita no tamanho. Mas enorme na sua capacidade de criar rebentos, meus dois filhos nasceram daquela pequena grande mulher em parto normal, embora pense, como médico urologista, de como pode um filho nascer com mais de três quilogramas, passar por aquele pertuito a princípio que mal caberia um fio de linha, mas, quando se relaxa deixa passar primeiro a cabeça, para depositar o corpo inteirinho nas mãos trêmulas de emoção do pai, que, de repente, embalado por uma saraivada de sentimentos, chora, descem lágrimas por sua face rubra, até que um pediatra tome a criança aos seus cuidados, leva-a para o berçário, até que as mesmas lágrimas sequem, tempos depois.
A arte de costurar talvez seja mais antiga que meus anos contam.
As costureiras valentes ainda resistem às fábricas dotadas de máquinas modernas. Elas se submetem não só ao tempo. Muitas delas ainda tecem, costuram, remendam roupas antigas. Metamorfoseando-as em semi novas. Trazendo enorme satisfação aos seus clientes.
Já eu, anos atrás, precisamente quase desde a morte do meu saudoso pai, aprendi também a costurar.
Não costuro colcha de retalhos. Também não faz parte de mim alinhavar bainhas estropiadas.
Não prego botões. Nem coso calças na intenção de fazer bainha.
Aprendi sim, a costurar amizades verdadeiras. Costuro e alinhavo ideias. As quais se transformam em crônicas. Muitas delas são unidas em livros.
Aprendi, não com minha querida Rosa, a coser, não com z, palavras, letras, sílabas.
Entrelaço-as nas entrelinhas das linhas tortas dos dedos das minhas mãos.
Costuro, não usando máquinas, e sim este sofrido teclado do meu computador, palavras que não solto ao vento. Junto-as, tento uni-las, formando palavras nascidas como cascatas que descem pelas pedras, se transformam em turbilhões, levando, de roldão, pessoas que debaixo dela incautamente não se escondem.
Costuro, tento, nesta minha eterna costura em busca de leitores, gente que lê, gosta de escritos bonitos, aprecia visualizar palavras, e, mesmo que meus livros não sejam adquiridos, mesmo assim persevero.
E continuo a costurar, não usando máquinas de costuras verdadeiras, mas tudo aquilo que minha inspiração dita, a cada manhã que nasce, a cada dia que acontece.
Costuro sim, usando meus dedos em frenesi, histórias e estórias, causos, coisas e loisas, prefiro não repetir meus ditos.
Até quando irei costurar palavras? Nem eu sei.
Só o futuro irá dizer. Tomara ele diga, com uma vozinha sussurrante: “doutor Paulo. Você nasceu com um enorme dom. Dom é o nome do meu netinho mais novinho. Nem eu mesmo sei. Só sei que por mais que tente, não saberei dizer até quando. Que seja em verdade eterno enquanto durar. Esta vocação maravilhosa em alinhavar, costurar palavras, coser o que elas dizem, e, quando o senhor quiser transformar tanta inspiração em livros que o faça. Antes que a terra o costure e o enterre. Levando, em seu ataúde, um monte de livros e palavras escritas”.
Não pensei duas vezes. Em verdade a minha Rosa mulher deixou como herança pra mim sua nobre arte. Um tanto distinta entre coser usando um dedal. E ter mais de um dedal de prosa escrita. A quem apreciar a arte de costurar. Usando a nobre arte de se tornar escritor de verdade.