Noites mortas. E ao mesmo tempo vazias.
A mais ingrata e difícil de superar, na minha não abalizada opinião, aquela mais difícil de passar, é quando, ainda no meio da noite, plena madrugada, a gente acorda, no meio de um soninho gostoso, abre os olhos remelentos, e, vira prum lado, reviramos pro outro, amarfanha os lençóis, dobra o travesseiro, tenta sentir o contato daquele corpo quente que dorme ao nosso lado, tentamos não importunar a nossa esposa, e, pensando no dia que se abre lá fora, não temos a coragem de abrir a janela, do lado de fora a escuridão predomina, pra mim não restam dúvidas. A pior hora do dia é justamente a hora em que acordo. Quase sempre, pontualmente, no momento em que o relógio arreganha os olhos dos ponteiros, e mostra exatamente três e quase quatro da manhã.
Assim tem sido a minha existência. Nem sempre foi assim.
Em jovem ainda não trocava a cama quentinha por nenhuma madrugada fria.
No entanto, com o tempo tiquetaqueando inquieto, nem sempre fui assim, as horas de sono foram encurtando. A noite foi sendo reduzida a um montinho de nada. Até se resumir a nada menos do que cinco horas inexatos de sono leve. Mais leve do que uma pluma esvoaçando ao vento de agosto. Mais leve ainda que o soninho apetitoso dos meus queridos netinhos.
Como as crianças dormem bem. Os meus três netinhos, assim que termina o desenho da galinha pintadinha, com seus vários pintainhos, já fecham os olhinhos de pálpebras abaixadas tal e qual encontro as minhas persianas aqui, nesta sala, que sempre me acolhe todas as manhãs.
O verdadeiro ditado assim o diz: “águas passadas não movem moinho. Em minhas pisadas não. Não há mais espinhos. Eu fui renovada em minh’alma há paz, Jesus vem comigo e o triste perigo ficou para trás. Um dia passei por grande provação. Bastante chorei por minha desilusão. Meus dias passavam por um vale de dores. Onde as aves não cantavam nem haviam flores. O vento soprava e lá fora chovia. Minhalma chorava em cruel agonia. A noite escura desceu sobre mim. Uma noite de amargura que pensei não ter fim. Águas passadas não movem moinho. Em minhas pisadas não, não há mais espinhos. Eu fui renovada em minha paz. Jesus vem comigo e o triste perigo ficou para trás. Às vezes preciso pensar um pouquinho. Que as rosas tão belas produzem espinhos. Porém dão aroma e enfeitam também. Assim mesmo são as provas que me sobrevém. As lágrimas tantas que um dia chorei. Se fizeram em pedras e eu colecionei. Em pedras preciosas de raro valor. Que enfeitam hoje em dia meu caminho de amor. Águas passadas não movem moinho. Em minhas pisadas não, não há mais espinhos. Eu fui renovada e em minhalma há paz. Jesus vem comigo. E o triste perigo ficou para trás” …
Já eu digo, de outro jeito. Mágoas passadas movem moinhos. Graças às águas caudalosas que seguem em frente até encontrarem um rio. E este mesmo rio um dia vai abraçar o mar. Que se transforma em um grande e indomável oceano. O qual, num dia de grande desengano faz com que suas ondas enormes se transformem num maremoto. Ou até mesmo num tsunami.
Mágoas passadas são difíceis de esquecer. De quase impossível esquecimento. Aquele, ou aqueloutra, que um dia nos feriu, a ferida vai custar a cicatrizar. E, se o faz, ficam marcas tatuadas em nossa pele, como tatuagens de hena que desaparecem ao primeiro banho de mar. Seja calmo ou bravio. As mágoas, as quais chamo feridas, se por acaso, por um descaso, forem esquecidas, um dia retornam vívidas, como as ondas do mar que vão e vem.
Não esqueço as minhas mágoas. E como gostaria que elas todinhas fossem sepultadas. Só que, devido a minha intensa sensibilidade, ao meu coração que palpita, sempre em descompasso, por mais que deseje, por mais que chore, confesso, não me esqueço daquele que me feriu.
Pra mim mágoas, aquelas mesmas águas que alguém disse, movem moinho, pra mim as mágoas fazem o mesmo papel. Elas, as mágoas, pra mim não serão esquecidas. As lembranças, boas ou até mesmo ruins, vão permanecer ensartadas, no meu âmago sensível, até ad eternum. Não por mim. E sim por não conseguir, penso eu, domesticar as insaciáveis mágoas, que, porventura, alguém, não por mal, ou, por seu revés, tenha deixado, como um tsunami indomável, depois de uma tempestade, que assolou céus e terra, na sua passagem inesquecível, quando folhas mortas se deitaram na relva seca de um jardim…