A receita milagreira do Zé Furdunço para esmagrecer

Coisas existem que não se pode segurar.

Flatus, vento, paixão irresistível, vômitos incoercíveis, arroto, diarreia, eco, palavrão quando se topa com a canela na quina da mesa, ejaculação rápida quando a tesão sobressai ao desejo, a vontade de correr atrás do vento, e ele escapa ao pensamento, e outras coisinhas mais das quais me esqueci.

Emagrecer, não esmagrecer, pode levar aos mais letrados a impressão de que eu não sei escrever um português castiço como se fala em Portugal, trata-se de um drama àqueles de mal com a balança. Quando quem, em sobrepeso, olham pra pobre dela e a tal se esconde atrás do balcão da farmácia.  E ai de quem diz: “oi você, elefante obeso. Não está na hora de fazer uma dieta”?

E a resposta nem sempre é conveniente. E pode ser dada como uma porretada que pode abreviar-lhe a vidinha mansa.

Tenho um compadre, eu e Seu Zé Furdunço, velho conhecido de doutos tempos, que nunca se olhou no espelho, poucas ou nenhuma vez o fez, que daquela superfície espelhada, que pode se partir ao meio, quando a feiura é extremada, recebeu, jamais contrariado, pois Zé Furdunço tem um bom humor dos passarinhos canoros, que uma vezinha apenas, quando nos demos de encontro no topo do morro empinado, comentamos, an passant, sobre uma tal de dona Feiosa, que, além de ser vesga e fanha, tinha mais banha na pança que muitos capados gordos.

E elazona nunca se descabelou com tal heresia. Fazia de conta que o espelho não existia. Se bem que no seu quarto de dormir uma parede inteira era coberta de vidro. Mas ela nunca se via pelada. Aliás, sua barriga estufada impedia a qualquer um que quisesse, admirar o que ia por baixo daquele abdome protuso.

Acontece que, num sábado que se perdeu de vista no tempo, bem à contratempo, a tal de dona Feiosa, não sei bem qual seu verdadeiro nome, passou pelo meu compadre, olhando de rabo de saia pra ele.

Meu amigo Furdunço, assustado como quando se vê uma mula descabeçada, tentou se esconder num lugar o qual pensava seguro. Mas, ao revés, ao invés de ser um cupinzeiro morto, ali moravam milhares de formigas cabeçudas. Foi preciso para meu infeliz amigo correr como saracura ameaçada por um caçador estilinguento. Trocando em miúdos – um menino com um estilingue pronto a ser usado.

E a dona Feiosa, percebendo a tentativa de fuga do meu amigo Furdunço, foi atrás dele. E o pegou no flagra abaixadinho debaixo de um pé de mamão macho.

Foi mais ou menos assim a prosa entre os dois: “amigo Furdunço (nunca entre os dois existiu um cisquinho de amizade). Ao revés. O que de fato acontecia entre eles era uma antipatia recíproca.

Mas meu amigo, sempre tolerante, nunca o vi irritado, salvo quando uma formiga cabeçuda mordeu-lhe a bunda, a ela respondeu: “o que a senhora gostaria de saber. Poderia ajudá-la”?

Foi quando a desguarnecida de formosura falou: “sabe? Dizem que ando meio obesa. O senhor tem uma receita milagreira para atenuar-me a gordura”?

Seu Furdunço coçou as orelhas de abano, tentou fugir da raia, não conseguindo teve de aturar aquele pedaço de banha falante.

“Tenho sim. É fácil. Basta a madama comer devagarinho. Sem mastigar. E, depois da pança cheia, correr ao banheiro. Levantar a tampa do vaso sanitário. Cuidado para não sujar o assoalho. E vomitar todo o conteúdo gástrico”.

Ao fim de alguns meses, anos passarinharam, a dona Feiosa voltou ainda mais gorda.

Por quê, quis saber meu amigo da roça do lado da minha.

“Foi por um simples deslize”. Vomitou pela voz a madama Feiosa.

“Não consegui vomitar. É um desperdício enorme de comida. Que está custando muito caro no supermercado.

Desde que vosmecê me recomendou aquilo, engordei mais de vinte quilos. E fiquei, outra vez, de mal com a balança”.

 

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