O Micuim que acalentava um sonho

Quem ainda não se viu em apuros, coçando por todo o corpo, na maior parte das vezes não enxerga o autor da façanha, tal o seu tamainho diminuto, o insetinho arguto, inteligente como foi Albert Einstein, não sabe o que em verdade tem acontecido com minha pessoinha desprovida de encantos, a não ser retratar no cotidiano tudo que se passa no entorno, depois de alimentar minha égua, uma potra da cor desbotada com aquele lençol que nunca foi lavado, a qual diz o amigo Marcelo que ela ainda pertence a ele, embora já tenha pago uma quantia de mais valia que a tal em verdade vale, e, ao sair daquele pastinho beira lago, senti, e ainda sinto um formigamento como se um batalhão de formigas cabeçudas ainda me cutucassem seus ferrões venenosos como a língua de uma certa beata, que vivia de joelhos na igreja, confessava-se religiosamente ao padre confessor, com o qual, diziam certos linguarudos, que era em verdade seu amante das horas incertas.

O tal Micuim, sobre quem versa a história, em verdade, quando cresce, espicha e engorda graças a sugar sangue de equídeos, quando adulto se transforma no conhecido carrapato-estrela. Cujo nome cientifico é Amblyomma cajennense.

Todos nós temos sonhos. O menino Paulinho, aquele antes lourinho, nascido em Boa Esperança no distante ano de um mil novecentos e quarenta e nove, precisamente no dia sete de dezembro (tô ficando veio hein!), acalentava um sonho.

Mal sabia ele que aquele sonho de ser médico de repente se fez realidade.

Mas, depois de passados tantos anos, quantos janeiros e fevereiros se foram, mal imaginava aquele cidadão prestante ( muitos dizem que eu não tenho mais serventia), um belo dia iria começar uma carreira ( não de corrida pelas estradas das cercanias), na arte felizmente ainda ressurgida das cinzas, qual a ave Fênix, a de escritor.

Mudando radicalmente de assunto, já que meus leitores estão carecas de saber que fui nascido, por um acidente de percurso na Boa Esperança, vamos retornar ao causo do tal carrapatinho Micuim.

Elezinho era do tamainho de uma cabecinha de alfinete. O qual sempre minha querida esposa usa para ajudar nas costuras.

Mas o tal Micuim, sempre em maiúsculo, embora ele seja diminuto, desde pequenino gostaria de ser grandão.

Quase todos nós temos o mesmo sonho. Que eu saiba ninguém deseja ficar do tamainho de um pintor de rodapé agachadinho.

No entanto, entretanto, este mesmo personagem da minha estória, qual a diferença entre história e estória?

Alguns estudiosos defendem a utilização de “história” para narrar fatos reais e documentados, que digam respeito ao passado da humanidade. Em contrapartida, o termo “estória” deveria ser usado para a narração de ficção e fatos imaginários.

Este carrapatinho pretinho, que quando pica mal se deixa ver, e quando o vemos que alegria sentimos! É um prazer imenso e ao mesmo tempo intenso, descobri-lo escondidinho, passeando pelo nosso corpo, ou agarradinho a nossa pele, chupando nosso sangue, e, naquele momento insano, espremê-lo entre as unhas, e rir da sua carinha de desconsolo ao virar uma gota de sangue espremida, não mais sorridente da nossa pele encalombada e coçante.

Esse mesmo carrapatinho acalentava um devaneio (não vou repetir a palavra sonho para não ficar muito repetitivo).

Seu sonho (voltei a repetir), era ser grandão, barrigudão, e ficar chupando sangue nas orelhas internas dos pobres equídeos. E que incômodo ele causaria nos pobres parentes dos cavalos (na minha opinião modesta os animais mais lindos que já botei os olhos).

Este mesmo personagem, já protagonista principal desse meu causo, depois de adulto se tornou adúltero.  Acabou pulando uma cerca de arame farpado e se fudeu.

Aqueles araminhos pontudos, enferrujados, causaram-se um furo enorme na barrigona. E ele, o ex Micuim, chorou de dor. Nunca vi um carrapatinho chorar. Vocês já viram?

Trasanteontem fui ao seu funeral funesto. Pedi pra segurar a alça do caixãozinho a direita. Quem me impediu de fazê-lo foi uma égua, a mesma que o tal Marcelo diz que ainda é dele. Além de mentiroso é barrigudo como um capado obeso. E ela relinchou: “sai! Deixa-me prestar o último tributo a esta peste negra. É meu o direito por direito”.

Persisti acompanhando o féretro do tal Micuim, agora transformado em carrapato estrela.

Para pôr um ponto final, não ponto e vírgula, nesta estória lacrimejante, o sonho do tal Micuim em verdade teve um final feliz.

Ele virou uma estrelinha de verdade. Ainda hoje, em noites escuras, ao olhar pra cima vejo uma estrelona enorme. Tentando sugar sangue da lua. Pena que de tola a lua nada tem. Ela escapa da peçonha do carrapatinho chatinho, dizendo assim: “sai, antes que te amasse entre as unhas. Pena que não as tenho. Já roí todas elas. De raiva de ti.”

 

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