Quem ainda não partiu uma laranja ao meio, com uma faca afiada, e, chupou a meia metade, deixando a outra metade a sua cara metade? Se não o fez pense no que desfez, e no desfecho desta historinha alegre, de um menininho alegre, olhos meio esverdeados como as águas do mar num dia de calmaria.
Quem não conhece a minha rocinha deveria desvendar-lhes os mistérios.
Saber o porque dos porqueres de tantas coisas e loisas que por ali passaram. Bem antes que aquele pedacinho de paraíso, onde vacas aprenderam comigo a dar leite, onde o felizardo boi, ainda um reles marruco, desconhecendo como se fazia a monta, assim que a novilhota desse o primeiro cio, um dia, era um sábado, mês de junho, um frio destemperado fazia-nos cobrir as orelhas com um chapeluco meio maluco, num matinho ensombrado e ensandecido, um rapazinho, lourinho como o passado me desenhava, escondidinho numa moita de capim, por riba de um cupim morto, matado por formicida tatu, na sua tentativa inglória de ter seu primeiro casinho de amor, fazia de uma égua novinha, a sua primeira namoradinha, de uma reles concubina, e, não hora H veio a falhar, ejaculando tão veloz como as asas batem frenéticas de um beijaflorzinho, recém egresso do ninho, com asinhas ainda despreparadas para avoar.
São episódicos ainda não periódicos. Pois parte deles não passam de meras invencionices minhas.
Um outro causo, este não foi inverdade, podem pensar que tenha sido mais um dos meus devaneios, aconteceu numa tarde escura. Um verdadeiro breu.
Lá ia eu, por uma cava lúgubre, numa escuridão de fazer inveja e medo a um tatuzão, amparado pelas luzinhas toscas de lamparina, recheada de vagalumes piscantes, tais e quais estrelinhas cadentes e candentes, desprendidas do céu por um engano que quase as fez perder o que tinham de mais preciso, não o lume, muito menos o brilho, quando, num átimo de segundos, instantaneamente, numa noite indolente, eu vi, juro e não desconjuro muito menos desconjumino, uma mula sem cabeça soltando fogo pelos olhos, aqueles zoiões mais parecidos aos de um corujão, que por riba de um cupim, girando o pescocinho curto e grosso por trezentos e tantos degraus, espreitava a presa, faminta de fome de pegar pelo bicão afiado qualquer coelhinho ou coelhinha, gostosinha como aquelas da revista Playboy, que pena que nos dias de hoje elas foram terminando a edição, não sei por obra e desgosto de quem quer que fosse, por certo um homem afeminado e mal afamado, por não gostar de mulheres, e apreciar mais a companhia de homens másculos, músculos feitos a poder de muito peso carregado na cacunda.
Isso foi há tempos atrás. Quando euzinho era ainda um menininho imberbe, sonhando um dia virar um médico abnegado, tornando-me um escritor famoso, além da serra alta que daqui se perde na distância, da minha querida cidade adotiva, a qual considero meu berço verdadeiro e de verdade.
Não me esqueço de quando comprei aquela rocinha onde só se via um curral caindo aos pedaços. Duas duzentenas, se tanto, de vacas magras, costelas à mostra, bicheiras sangrantes esparramadas por cima delas, uma casinha vazia, recheada de recordações e lembranças, de um passado, passado a limpo, de papel amassado, uma laguinho mais parecido a um charco alagadiço, onde saracurinhas ariscas dividiam o espaço resumido com girinos futuros sapinhos ou rãs ranzinzas, e mais, sem deixar esquecido aquele chiqueirinho infecto e infectado, onde porquinhos grunhentos esperavam, temerosos, quando, no natal que se avizinhava, gordos, capados, iriam servir de ceia nas festas festivas de final de ano.
Na minha rocinha, cujos anos se vão, existiam dois cãezinhos. Viralatinhas sem pedigree. Mas garotinhos serelepes, como hoje, meus três netinhos me fazem perder o que resta dos meus cabelos, dada a correria que eles ensejam.
Aqueles cãezinhos, amigos féis do meu ex retireiro, chamado de Custódio Notícia Ruim, pois as boas ele sonegava, na tentativa inglória de nos ver livres deles, fazia-me acompanhar, naquelas corridas ensandecidas até chegar à Lavras, pela estrada da velha Ponte do Funil, que as águas da represa enterrou, ledo engano.
Eles iam até pertinho da entrada da cidade. De repente, não querendo que ambos me acompanhassem, deixava-os na casa de um amigo, o Zé Maria, que até hoje milita na velha Santa Casa, hospital hoje bastante distinto. Mas não perdeu a distinção daqueles distintos anos, quando aqui comecei a trabalhar.
Mas, na tentativa mal sucedida de encurtar as pernas da estória, vamos voltar ao título da minha crônica desse dia dezessete de julho, um domingo lindo, depois de uma noite linda em companhia da minha querida amada.
Na rocinha de hoje, arrendada a um amigo que entende de vacas e suas crias, quase sempre acho o tal meninozinho assaz educado e prestativo, olhinhos da cor de mel de flor assa peixe, de uma doçura sem par, chamado Cauã, o qual já retratei em retratos, feitos por meu celular, nas páginas do Face, e muitos me indagam se ele é meu netinho, gostaria que fosse, pois os meus verdadeiros não costumam acompanhar o avô, quando bato minhas asas por aquelas bandas do lado de lá. Não de cá.
Já bem o sabia de sua vocação em ser fazendeiro. E como o garoto Cauã ama as vacas, não deixa de amar os cavalos, sejam eles trotões ou de marcha repicada, ele idolatra as maritacas, sobe nos pés de jabuticaba como se fosse um macaquinho endiabrado, diz, com aquela vozinha apressada, de quando em sempre não entendo o que elezinho diz, mas finjo entender, aquele garotinho, neto do amigo Roberto, arrendador do meu pedaço de pasto sujo, que tem de ser roçado a cada ano, pois se não vira um sarandi, tem mania de dizer, sempre, que aquela vaca, ou aqueloutra bezerrota, mocha ou não moça, a ele pertence.
Geralmente a metade de mais valia. Ele me disse, noutro dia: “doutor Paulo, num tom respeitoso e respeitador. Aquela vaca malhada, chifruda, comprei do meu avô. A outra, pretinha como jabuticaba, feia como urubu pelado, não tenho mais no meu plantel. Passei ela adiante. Ela era de pouca valia. Agora estou com vontade de comprar uma potra boa de marcha a ré. Vou comprar ela inteirinha. Não apenas a sua metadinha.”
Tudo para o menino Cauã cheira e fede a metade da meia banda. A metade de uma vaca, no seu caso, é aquelazinha onde dá leite. O resto que sobra pertence, ou ao Binho, seu tio adorado, ou ao seu avô amado.
Ontem, ao cair da tarde morta, quando estava na minha casa da roça, aquela mesma lindona, de olhos pra represa, o menino Cauã me fez uma proposta.
“Doutor, quer trocar a minha vaca mocha por sua égua Garota? Aquela que seu amigo Marcelo, aquele feioso e barrigudo que ainda se diz dono da tal égua, embora o senhor já tenha pago por ela. E quanto o senhor me volta de troco”?
Olhei, olhei de novo, nos olhinhos embevecidos do meu amiguinho, tão ou mais espertinho do que euzinho, e retruquei: “Truco! Não vale blefar. Só se for a metade da meia banda da minha égua pela melhor parte de sua vaca. Os quartos da metade para a outra banda do meio. Onde nasce o leite. Dispenso o rabo. E você, espertinho. Fica de quebra com os carrapatinhos micuins”.
Até hoje, neste domingo cedo, quase oito horas, não sei a resposta a ser dada por aquele menino da metade da meia banda.
E, se ele aceitar a catira, ou escambo, não vou escambar para a ignorância.
Ah! Seja o que o Cauã quiser. Ele vale ser trocado por uma boiada enorme. E ainda sobra troco.