Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver a cada segundo
Como nunca mais…
Bem o disse o grande poeta Vinicius de Morais
E eu contradiria
Se eu pudesse voltar no tempo, com o mesmo discernimento de agora, talvez não incorresse em tantos erros. E a tal tristeza dos velhos tempos fosse banida pra sempre como se foi tarde a mocidade.
Ele disse que a saudade não compensa. Ai, o que seria do meu eu não fosse pela saudade. Ela é minha companheira sempre presente, desde quando perdi meus pais.
Disse ainda, talvez acompanhado por um violão, que a ausência não dá paz.
Pra mim a mesma ausência se faz presente. Não tenho como viver só.
E aquele verdadeiro amor de quem se ama, sublima este grande poeta, tece a mesma trama, que não se desfaz. E eu diria. Muitos amores eu tive. Eram amores distintos. O tal amor filial. Aquele sentimento que nos aproxima dos filhos. Um amor especial. Outros tipos de amores existem. Amor à natureza, à beleza, mesmo que inexistente, a qual deveríamos compartir com todas as gentes, a idade que chega a galope, num trote cadenciado, já que se vai ao longe a mocidade, o amor que se despede da gente, depois de uma relação inconveniente, o tal amor que une dois corações, que se entrelaçam num simples abraço, que pode ou não terminar na cama, o amor pãotônico, nascido na padaria, tantos tipos de amores se acham.
E ele assim o termina: “e a coisa mais divina que há neste mundo é viver a cada segundo, como nunca mais” …
Já eu vivo sempre o presente. Mesmo que muitos não o consintam. Mas jamais me olvido do passado. Pois ele sempre viveu naquela mesma rua, que de lá me olha com olhares engalanados de saudades, de um tempo bom que passarinhou, e, mesmo que eu tentasse, não conseguiria transformar nunca meus sonhos e devaneios na mais pura e sofrida realidade.
Ah! Se eu pudesse voltar no tempo. Confesso que fá-lo-ia com mais desapego. Numa manhã iluminada como a de hoje, metade do mês de julho foi embora, tomaria pra mim um tempo, remexeria meu baú de guardados, de lá tiraria todos os pertences usados, doaria aqueles trastes velhos a quem mais precisasse.
Se por acaso me fosse facultado voltar ao passado, sem, no entanto, me desvencilhar do presente, o qual encaro como se fosse um presente de verdade, voltaria a ele de corpo presente. Talvez não tivesse sucesso em estar naquela mesma rua vestido em calças curtas, jogando bete ou finca, brincando de bolinhas de gude com algum amiguinho que hoje partiu rumo aos céus, meio túrbidos, embaciado de nuvens cinzentas.
Meu meio de transporte que me levaria ao passado, por certo não seria um carro em velocidade máxima. Pois nos dias de agora o que mais me sobra é o tempo. Pegaria carona num rabo de cometa. Pediria a este mesmo cometa que me fizesse chegar às estrelas. Umazinha delas com certeza seriam meus saudosos pais.
Ah! exclamo eu. Sem vírgulas ou reticências. Iria tecendo minha teia, a mesma que Vinicius batizou de trama, como a aranha tece a sua teia, na intenção pra muitos não louvável de ingerir depois de aprisionar suas presas.
Ah, de novo digo ah. Se eu pudesse, e meu dinheiro desse, tiraria a fome de todo mundo, mesmo daqueles que vagabundeiam pelas ruas, sem eira nem beira, fumadores de crack ou portadores de outros vícios quaisqueres.
Se eu pudesse, e o tempo de vida que ainda tenho me facultasse, não diria nunca não. Estenderia a minha mão inteira, não para que uma cigana porventura lesse o que nas linhas das palmas das minhas mãos estivesse escrito por linhas retas, não teria nenhuma vontade de prever o meu porvir. E sim para mitigar o desejo de saciar-lhes a fome. Atenuar-lhes a miséria miserenta. E tratar de pôr fim a saudade imensa daqueles verdes anos da minha infância perdida. Pena que sonhar é preciso. Mas tenham o devido cuidado para não se esboroarem no duro chão que debaixo da cama se mostra como cimento endurecido. Por ter sido esquecido num pátio qualquer de alguma construção.
Ah, se eu pudesse retroceder alguns anos. Não me sentiria como um sapato velho. Gasto e furado na sola. Sem chance de ser mais um remendão.
E como diria Vinicius de Morais. Com sua viola e sua cantoria lírica. A tristeza não me convence. Sentir saudade não compensa. E que a ausência não dá paz. E que o verdadeiro amor de quem se ama tece a mesma antiga trama. Que não se desfaz. E a coisa mais divina que há no mundo é viver a cada segundo como nunca mais.
E, seu eu pudesse voltar no tempo, nunca iria me lastimar. Só que, um pequeno detalhe tento deixar escrito. Jamais esqueceria meus escritos. No meu baú de guardados trancá-los-ia a sete chaves. Sem medo de cometer senões ou logros. Já que penso tê-los cometido muitos mais…