Aquela cidade, no lindo e ensolarado Nordeste, angariou fama graças a uma peculiaridade.
Ali as festas de São João, tidas juninas, que de vez em sempre se alastram julho adentro, acontecem quase o ano inteiro. São pessoas festeiras que amam dançar. Aquela dancinha moleca chamada forró.
Quadrilhas, no bom sentido, não aqueloutras que assaltam bancos, colocando em alerta populações antes tranquilas, agem durante as madrugadas. Queimando viaturas da polícia.
Incendiando ônibus na intenção de impedir ou dificultar a ação de soldados a serviço da lei, naquele novo cangaço que nos dias de hoje tanto temor nos traz.
Caruaru, no sertão de Pernambuco, situado na região nordeste daquele estado, tem uma área de 920611 quilômetros quadrados. Numa altitude média de 545 metros. Dona de um clima semiárido. A população estimada conta com felizes 365278 habitantes. Segundo o senso de 2020.
Lá não tem praia mas tem forró. Durante os festejos animados dança-se, balança o corpo, até se deitar de cansaço.
A feira de Caruaru é um capítulo à parte. Ali se encontra quase tudo. Menos a tristeza que não se vende por lá. O museu do mestre Vitalino nunca fui visitar. O morro Bom Jesus não se tem outro lugar melhor. Já o museu Luiz Gonzaga, onde se dança o baião, com aquele chapéu de couro, com aquela sanfona que ringe e não desafina, não deixem de visitar. Ai que saudade do velho baião. Ele dança agarradinho. Com a mão na cintura e a outra onde Deus não quer.
A serra dos cavalos só falta empinar. O museu do barro não amolece jamais.
Foi ontem o acontecido.
Por aqui passou um fulano, simpaticíssimo. De nome Amaro, quem o trouxe, de cabresto amarrado, foi seu genro. Outra pessoa admirável. Velho conhecido e paciente.
As queixas do Seu Amaro, um amor de gente, mora agora em Nepomuceno. Mas nascido e renascido em Caruaru, não há quem não aguente seu riso sem dentes. Ele usa um chapeuzinho tal e qual o do rei do baião. Só lhe falta a sanfona. No mais sobra-lhe simpatia e alegria, nos seus quase noventa anos bem vividos. Agora ele enviuvou. Mas não lhe falta um rabo de saias e o que se esconde debaixo dela.
Diz ele, segundo ouvi da própria boca, como ele conta causos, conhece de cor e salteado versículos do livro santo.
Seu Amaro de Caruaru já foi operado de próstata. Mas ainda se ressente de alguns incômodos da cirurgia.
Não consegue segurar a urina. Ela vem quando não convém. E acaba por ensopar-lhe a cueca listada como uma zebra fugindo das garras de um leão.
Ai que pessoa boa é Seu Amaro. Ele deve ser amado em qualquer lugar. Seja na festiva Caruaru ou na sua morada atual. A Nepomuceno da terra vermelha. Onde café nasce onde quer que se plante.
Depois de um exame meticuloso, de examinar suas partes escondidas, e fazer mais um toque sem retocar sua hombridade, dei-lhe afinal o diagnóstico.
Aquele bode velho de Caruaru nada sentia. Receitei-lhe um remedinho para remediar um cadinho os seus infortúnios.
E ele daqui se evadiu abraçadinho a mim. Sorrindo, contando causos, recitando versículos
da Bíblia, de frente pra trás e de trás pra frente.
Até hoje, um dia após quando o conheci, ainda me lembro daquele bode velho. Com sua barbicha branca. Sem aquele berro típico que faz bééé.
Seu Amaro, não sei se o senhor vai ler o meu escrito. Se por acaso vier a passarinhar os olhos nisso. Não me leve a mal. Sou fanzoca de carteirinha de identidade da simpatia que aquele bode velho de Caruaru me deixou.