Mais um filho que nasce

Já vi nascerem dois filhos. Um casal de crianças que até hoje me encantam.

Embora crescidos, ajuizados, ambos me fazem antever que num futuro perto talvez não seja abandonado numa casa de velhos qualquer.

Já assisti ao nascimento de três netinhos. Theo foi o primeiro a pôr a cabecinha carequinha, já mostrando que seria um menino lourinho, tal e qual fui, na minha infância perdida na lembrança.

A seguir-lhe os passinhos, ainda engatinhando, vi nascer outro menininho. Gael, notável ciclista, quase um equilibrista que faz o seu avô se desequilibrar de tanta correria, quase perco meu fôlego, fico ofegante sem percebê-lo, tentando chegar até a sua pessoinha linda, a qual a morenice magricela a ele permite se esconder em locais menos previsíveis.

Em dezembro, faz alguns poucos anos, foi quando, véspera de Natal, nasceu o Natalino. Foi assim que o recebi nos braços, feinho, cabeludinho, enrolado em um pano molhado, logo transferido aos braços de seu pai. Natalino é o apelido que me passou pelas ideias, naquela noite escura, quando ainda cria no bem velhinho, vindo de um lugar frio, puxado pelos ares por renas aladas, num trenó todo enfeitado por luzinhas piscantes como vagalumes errantes.  O nome de verdade do querido menino sapequinha, inteligente como ele só, foi batizado por Dom.

Agora só me falta ver nascer uma meninazinha. Parece que minha família parou no Donzinho. Mas como seria inimaginável ótimo ver uma menininha puxar a barba branca do seu avô, enfeitar-lhe os caixinhos doirados com lacinhos de fita cor de rosa, vesti-la tal e qual uma bonequinha, ensinar aquela meninazinha as primeiras letras, transformando-as em frases soltas, quem sabe elazinha seguiria os mesmos passos do avô, se transformando em escritora, versátil em outros idiomas, falando outras línguas díspares, sempre viva, com aquela linda flor de mesmo nome.

Só que sem sonhar não se vive. Sem imaginar, sem inspiração, não se consegue ir além dos devaneios. E eu sou assim. Um ancião com alma de menino.

Sou aquele senhor tido compenetrado, antes dotado de melenas topetudas, um bigode preto como a asa da graúna, magricelo, olhar atento, sempre procurando algo diferente, uma nova inspiração a cada manhã de um novo dia.

Nasci há inexatos setenta e dois aninhos. Não foi naquela casa que daqui se avista pelos fundos. Foi sim, meu despontar para o mundo, oriundo do útero fecundo de minha querida mãe, tendo meu pai como partícipe, naquela Boa Esperança, esperança que encerra, por detrás daquela serra, chamada de Serra da Boa Esperança, cantada e decantada por Lamartine Babo, poeta musicista mais feio, dizem, que seriema subindo a serra de elevador.

Não me lembro de detalhes daqueles anos bons. Lembro-me de poucos momentos. Euzinho, naquela pracinha, daquela mesma cidade, hoje cercada por um lindo lago, amparado por uma querida tia, ainda viva, não só nas minhas recordações mais ternas, que tomara se eternizem ad eternum, já que, infelizmente, viver para sempre é mais uma utopia das minhas.

E meu avozinho, por parte de mãe, o sempre lembrado, por muitos venerado, que andava cidade toda, sempre a pé, vestindo aquele terninho azul marinho, com riscas de giz branquinhas como sualma pura, de nome Rodartino Rodarte. Dizem, quem viveu e sobreviveu àqueles verdes anos, que uma calça curta, que eu usava, era feito do mesmo tecido do seu terno. Não juro nem desconjuro que seja verdade esta história.

Meu outro avô, pai do meu saudoso pai, marido da avó Maria, foi carpinteiro, a exemplo de Jesus, nas oficinas da rede ferroviária que o trem levou pra longe, saudade da velha maria fumaça, que fazia “piui, piui”, nas suas andanças pelos trilhos tortos da esperança, de que um belo dia a ferrovia seja de fato tão importante como um dia foi. Oxalá será.

Estou prestes a assistir a mais um nascimento. Ontem aqui chegou a boneca do meu novo livro. Chamam de boneca o rascunho, a prova definitiva, de um novo livro.

A maternidade, onde meu filho livro nasceu, foi o mesmo lugar cheio de máquinas impressoras, recheado de computadores onde meu diagramador capista desenvolve as páginas do livro, numera-as, faz o índice, imagina como vai ser a capa, desta feita ficou realmente uma belezura. Não sei como meu amigo, de outas edições, conseguiu inserir lágrimas lacrimejantes em meus olhos tristes.

A prova que tenho em mãos não é definitiva. Faltam pequenos detalhes. Que logo serão ultimados.

Hoje, aqui, na minha oficina de trabalho, recebo, através dessa boneca linda, como seria a minha netinha que infelizmente ainda não nasceu, dou de comer aos olhos nesta iguaria de paladar indescritível.

Leia com meus olhos é como se fosse o nascimento de mais um filho meu.

 

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