Num final de manhã, quase hora do almoço, minha barriga mugia de fome, antes de chegar à Ijaci, de volta da minha rocinha, senti que minha pratinha valente se inclinava debilmente para o lado do motorista.
Minha amada esposa, sempre ao meu lado, naquele momento preocupante assim exclamou: “cuidado Paulinho! Para a caminhonetinha. Parece que o pneu do seu lado acabou de murchar”.
Sem experiência na troca de pneus recorri, desajeitadamente, a procurar o tal estepe.
E ele não estava aonde deveria. Procurei debaixo do meu banco. Em meio a um amontoado de bugigangas ele não se encontrava. Voltei a busca em todos os lugares previsíveis e imprevistos.
Foi quando me lembrei que o pneu sobressalente ficava preso à cadeado bem na caçamba da minha condução, mais velha que a serra que daqui se avista.
Foi aí, neste exato interregno, movido pela pressa que me consumia, deparei-me com o estepe murchinho. Como se fosse um maracujá velho, ou uma senhora que passou da hora de usar Botox.
Não tive como não recorrer aos serviços de um borracheiro. Cidadão prestante que sempre está pronto a remendar pneus. Pena que o tal não consiga remendar-me por inteiro. Bem que preciso alisar as rugas da minha face. Quando me olho no espelho ele faz caretas. E eu nem ligo mais pra minha aparência. Hoje reduzida a um velho que se recusa a envelhecer. Já que por dentro de mim mora uma alma de menino.
Estepe, pneu sobressalente, pode ser entendido, o termo estepe, como aquela vegetação gramínea, que ocorrem em zonas de clima seco e baixos índices de umidade.
Já o estepe é um pneu substituto. Entendido como medida de segurança usada no mundo inteiro. São vitais para o funcionamento de um carro. No entanto relativamente frágeis como pétalas de rosas. Ele tem duração variável. Dura enquanto perdura a eternidade.
Já este tipo de estepe, sobre o qual, no dia de hoje teço minhas considerações, podem ser conhecidos por nomes variados: amada amante, a outra, aquela pessoa que ama alguém, namorada ou ficante, nas horas que a esposa se mostra ausente, pessoa que mantém uma relação amorosa ou sexual estável ou regular com outra casada, concubina, e por ai caminha a humanidade.
Ser amante pode desfrutar de certos benefícios. Como receber presentes e ter de devolvê-los ainda semi novos. Manter a discrição dos encontros a luz de velas. Não anunciar o nome do motel que os recebeu naquela hora. E, se por acaso a mãe dos seus filhos, dita a rainha do lar (embora seja uma rainha sem coroa), descobrir os encontros furtivos, se prepara para tomar uma coça de vara verde. Que fatalmente irá deixar tatuagens inesquecíveis em lugares pouco previsíveis.
Tenho um compadre, pessoinha quase sem defeitos, não vou listar os maiores, e sim vou declarar aquele que me causou maior constrangimento.
Acontece que esse mesmo compadre, casado com uma mulher mais parecida a uma coruja zarolha, pelada e peluda, vai ser feia nos isquintos de onde mora o jiló, o qual, a quem chamo de Barnabé, amava se deitar com um capim novinho em folha verde mata.
A tal concubina, a qual ele chamava de estepe, era fogosa com uma tal de Maria Bruaca. A mesma atriz que atua na novela Pantanal.
Com ela não negava fogo. Era intempestivo e tempestuoso. Tal e qual uma chuva de verão calorento.
Nunca, que ele se lembre, foi preciso usar aquela pilulazinha azul, que promete alavancar defunto morto. E o tal pinto funciona. E não faz feio na hora H.
A relação de concubinato durou menos que a florada dos ipês. E o tal pinto murchou, como as flores do ipê costumam murchar tão precocemente.
Acontece que, naquelas paragens, um fim de mundo onde quem chega não sabe voltar, a tal estepe de repente murchou. Foi esvaziando a relação. Com uma nau sem rumo perdida num mar revolto. E elazinha partiu em busca de uma cama melhor. Deixando o pobre Barnabé chupando cana sem assoviar.
Foi um desfecho previsível. Sabido e ressabiado por todos que conheciam o velho Barnabé.
Dizem, nos tempos de agora, esta fala que vos falo: “isso acontece a quase toda gente. Na hora do bem bão, do vamo ver, quando a coisa aperta, quem nos acode e dá suporte é a nossa mulher legítima. Seja ela bonita como uma saracurinha empenada. Ou até mesmo como uma égua quando pisca a espera de que o garanhão a cubra. Não troque nunca um pneu meia sola por um estepe semi novo. Um dia o estepe, fundamental para que o carro ande, pode ir a furo. E agora Barnabé? Quem vai te consolar”?