Não sei por que você se foi

Ontem, no debrum da tarde, ao passar pela praça, chamada por nós, mais experientes em anos, de jardim, percebi, debruçando-se sobre aquela calçada de pedrinhas portuguesas, já bem soltas, carecendo reparos, folhas mortas despedindo-se da árvore mãe, num voo inseguro até caírem ao chão.

Isso acontece quase sempre no outono. De novo o inverno costuma receber as mesmas folhas desprendidas das pontas dos galhos finos, não tendo como novamente assoprar, dentro delas, nova vida, novas cores, sendo impossível recolocá-las de onde nasceram.

Já tentei, debalde, durante uma conversa com uma florzinha de ipê, amarelinha, recém caída, viva, na relva ressequida de um outro jardim, antes uma pracinha enjeitada, fronteiriça ao condomínio onde morei anos atrás. E ainda sinto saudade daquele lugar rico em verde, onde pássaros cantavam livremente, onde florzinhas de Murtas branquinhas atapetavam o negrume do asfalto, onde abelhas não ferroavam, simplesmente polinizavam outras flores, na intenção de adocicarmos nossas bocas com o doce sabor de mel.

Durante aquele curto colóquio entre mim e a florzinha da árvore de ipê amarelo foi exatamente sobre este assunto que proseamos: “minha querida florzinha. Você não vai ter saudades de sua mãe árvore?  Deve ser muito duro ter de separar-se de suas irmãzinhas. Pobrezinhas delas. Não restam dúvidas que, neste exato momento, você, já morando nesta grama seca, não podendo avoar para junto delas, reviver quando ainda era um botãozinho, prestes a eclodir novamente, ajudando embelezar este lindo colorido amarelo que enfeita as matas. Fazendo sorrir de amarelo o solo castigado pela poeira. Conferir beleza nestes meses que começam em julho e se estendem ao final de agosto, entrando setembro adentro”.

Do outro lado, quase agonizando, a mesma florzinha, respirando debilmente, me respondeu: “o senhor nem imagina a dor que sinto. Pensa que flor morta não sente dor? Sinto sim. Só que esta é a nossa sina. Nascemos botões. Metamorfoseamo-nos em flores em pleno viço. Horas, minutos depois, aqui estamos. Não nos injuriamos em nos despedirmos da vida. Vamos nos transformar em adubo. Enriquecendo o solo castigado por esta seca inclemente”.

Dali sai com mais um aprendizado. Nós, como as flores de tantas árvores, que já enfeitamos a natureza, temos como destino certo a passagem para outro mundo. Não somos capazes de manifestarmos a nossa vontade de viver durante toda a eternidade. Ela é finita. Graças aos desígnios de nosso pai, o que seria deste planeta recheado de tanta gente. Seria um amontoado de pessoas, umas sobre as outras, nem as ruas iriam comportar tantas cabeças levando por baixo delas corpos que caminham sobre pernas.

A lição que aquela florzinha prestes a murchar me deixou a levo comigo pra onde quer que vou.

Um dia veio a se despedir de nós meu pai. Foi uma perda tida irreparável. Só e tão somente o tempo cuidou de atenuar a nossa dor.

A seguir, anos depois, foi a vez de nossa mãe avoar até o céu. E me senti como se um punhal, de fino fio, fosse-me ensartado no peito. As chagas de suas lembranças ainda não cicatrizaram. Ainda bem que um dia nos encontraremos. Conto as horas para que tal efeméride aconteça.

Já perdi vários amigos. Alguns de menor idade que conto agora. Já se foram aparentados. Um irmão, nascido com uma deficiência na espinha, Frederico, quase não me lembro de como era ele. Já perdi até mesmo a vontade de viver. Felizmente este incidente passou. Outros semelhantes passarinharão.

Hoje, prestes a colher idade nova, em dezembro estarei setenta e três, por vezes me indago. Quando alguém, pra mim caro, pessoa que não deveria ter partido, a mim me questiono: “não sei por que você se foi”?

Voltando à conversa com a linda flor do ipê, ainda viva estatelada no chão, quando ainda poderia viver tempos mais, a resposta talvez ela tenha me dado.

“Eu estou prestes a morrer. Morrerei feliz. Para que outras pessoinhas flores possam ocupar o meu lugar. E, quando aqui, nesta pracinha mal cuidada, a minha mãe árvore de ipê, por certo, quando setembro vier, outra estação chegar, outras flores irmãs a minha saga irão continuar”.

Dessa data em diante passei a compreender o por que de tantos porqueres. Inclusive a resposta a esta indagação: “não sei por que você se foi”.

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