Canto meus desencantos

Ainda me lembro, saudades avoam, de quando, numa jabuticabeira de fundo de quintal, cheinha de frutas madurinhas, pretinhas, tintas tal e qual asas de urubu, um sabiá gorjeava, emitindo trinados tristes, desconsoladamente pousado num galho mais alto daquela árvore de rica sombra, não sei quem a plantou. Talvez tenha sido fruto de uma sementinha lançada de um bico de passarinho, que, por um descuido ali a deixou.

Outros cantos me encantaram. Vida afora. Passado adentro. Não sei até quando ouvirei cantar. Ou outro passarozinho filhote, que, ao tentar descer do ninho, asas frágeis e inseguras para avoar, acabou-se desprendendo. E elezinho foi ao chão. Só que, naquele farfalhar de asas, toscamente empenadas, alguns arremedos de pelinhos começavam a brotar, uma mão caridosa o acolheu. Impedindo-o, exatamente quando a morte o iria arrebatar, partir rumo ao céu dos passarinhos, aquela avezinha diminuta conseguiu se livrar da peçonha da morte. E continuou a trinar lindas canções de amor. Este amor à vida que tanto nos faz alegrar.

Hoje, depois de tantos anos nessa escalada interminável e intermitente, que fatalmente vai conseguir me levar adiante, não sei quantos anos mais, nesta profissão espinhosa que abracei, depois de tantas topadas que eu dei, tentando salvar vidas e não tendo sucesso, atenuar dores sem o conseguir, numa fila de supermercado, a espera de minha vez, ouvi, da boca de um amigo, com quem de quando em vez me cruzo pelas ruas da cidade, esta afirmação orgulhosa que me fez pensar na medicina que ainda me faz ter saudades dos velhos anos de antigamente.

E aquele amigo caro me disse assim: “doutor. Minha filha está quase se graduando na sua profissão. Ao final do ano ela, a qual penso que o senhor a conhece, meu orgulho e xodó, vai receber o canudo, com o nome dela, e de outros colegas, papel este que vai ser dependurado à parede, num canto qualquer de sua oficina de trabalho.

Foi quando me lembrei do meu. Ainda o tenho aqui numa das gavetas. Bem guardado entre meus guardados. Enfiado a algum canudo escuro, bem lacrado, tentando se colocar a salvo das traças e cupins.

O meu convite de formatura foi feito à imagem e semelhança de um velho pergaminho. Ali estão grafados nomes variados. Entre quase duzentenas deles consta o meu – Paulo Expedito Rodarte de Abreu.

Faz tanto tempo aquela linda solenidade de colação de grau que quase não me recordo quando foi. Do que me lembre é que a efeméride se deu num ginásio da capital mineira. Estávamos todos os colegas usando becas negras como a noite escura.

Bons tempos aqueles. Recheados de sonhos. Muitos deles desfeitos. Não por vontade nossa. E sim por circunstâncias alheias ao nosso desejo.

Naqueles áureos anos médico não usava cobrar consulta de colega de farda. Nós tínhamos certas regalias. Não nos considerávamos a derradeira bolacha do pacote cheio de guloseimas. Usávamos vestimentas brancas como neve sem receber pingos de chuva escura. Éramos respeitados por termos vencido a difícil carreira da medicina. Ainda não pululavam escolinhas em cada esquina. O vestibular só era vencido pelos melhores alunos. Não por aqueles a quem diziam: “pagou, passou”.

Naqueles anos doirados a fama que angariávamos por bom atendimento era mais que justificada. A mídia até que nos poupava dos nossos senões imprevisíveis. Médicos antigos, de bigode e cavanhaque, não usavam tatuagens muito menos piercings enfiados na língua.

Jovens, recém formados, lançados no mercado de trabalho, ouviam atentamente as nossas alocuções. Éramos tidos, quase como ícones. Não os tais pés de barro mole. Aqueles mesmos que não resistem as chuvas de verão.

Quando me formei, não foi pra mim o final da linha. Outra etapa da vida me aguardava.  Deveria fazer uma complementação a fim de me tornar médico de fato. A especialização exigia de nós dias e horas intermináveis de plantões exaustivos. Não tínhamos direito a um sono tranquilo. Ao melhor das madrugadas uma sirene nos intimava a voltar à ação. E a gente voltava. Sonolentos. Não rabugentos. As enfermeiras dos tempos de outrora tinham-nos em alta estima.

Já hoje meu canto se desencantou. Médicos de mais idade só têm serventia para enfeitar velhas fotografias de uma sala de exame qualquer. Só recebem homenagens póstumas. E quem morre não tem o direito de ver o sabor de um sorriso a alegrar aquelas carinhas risonhas das novas gerações?

Muitos médicos, abnegados e dedicados esculápios, quem se lembra deles? Só se for na lápide fria de um jazigo qualquer.

Hoje canto meus desencantos. Um canto triste. Como um dia ouvi, num pinheirinho ao lado da igreja matriz, uma linda algaravia de pardais.

 

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