Bem que poderia ser mais uma segunda-feira. Começo de semana. Quase meados do mês de julho. No entanto trata-se de mais um domingo. O calendário mostra dia dez. Dia de folgar. Para muitos. Para permanecer na cama. Depois de um cafezinho gostoso. Voltar ao leito. Quando não se tem nada a fazer. Descansar? Pra quê? Se eu já vivo em eterno descanso, de segunda a outra segunda. Seguindo-se lhes as terças, que terminam à meia noite, depois aparece, contrafeita, a quarta-feira, sonolenta e espreguicenta, depois acordamos às quintas, muitos dizem: “vão pros quintos dos infernos”, pra muitos o inferno mora aqui mesmo, dada à falta de emprego, a fome nos pede comida, e, sem que a gente espere acontece, na mesma semana, mais uma sexta-feira, bendita, comemora a maioria, dia da cerveja e degustar tira-gostos numa mesa de um bar qualquer. E, na hora de pagar a conta digo que me chamo Paulo Abreu, se não pagar dependuram no varal dos inadimplentes, se não pagar muito menos eu, avizinha-se outro sábado, véspera de mais um domingo. Dia santo e glorificado. Em honra e glória daquele que se deixou imolar na cruz na tentativa vã de atenuar-nos os pecadilhos, naniquinhos, no caso de uma criancinha purinha, cujo único deslize foi ter nascido, sem querer, naquele lar desestruturado, mal amado, cujo padrasto desvirginou aquela pobre coitadinha, sob a complacência daquela mãe desnaturada, que permitiu o ato falho sem esboçar reação.
Hoje recai em mais num domingo. Pra mim era dia de ir à missa. Que era prevista a começar lá pelas dez. E tardava, mas não falhava o sermão do padre. Que usava batina e hoje a deixou de lado. Mas nunca escondeu que perdera a castidade. Pois padre que se preza nunca deixa um bom vinho de lado. E come como um capado sem pensar na obesidade. Que junto a ela eleva os níveis de gorduras saturadas. E corre o risco previsível de ver elevadas as taxas de glicose no sangue. E fica diabético prematuramente. Com todas as intercorrências devidas a esta doença. Sabedores que somos que a tal pode fazer de nós ceguetas abengalados. Os quais, na intenção de atravessar as ruas não podemos dispensar uma mão amiga. Sob pena de sermos atropelados.
Escorrega mais um domingo. Dia claro. Friozinho ameno. Ideal para uma corridinha até a vizinha Ribeirão Vermelho. Como fazia sempre. Antes que minha hérnia me estufasse a virilha. Causando-me inevitável desconforto. Graças ao bom pai de todos nós ela foi sanada. Tive minhas tripas salientes relocadas no seu devido lugar, o intestino. De onde elas não deveriam ter saído. Nunquinha.
Hoje, nesta manhã de inverno, temperatura subindo como subi de elevador, neste prédio vazio, ausente de colegas, pois hoje é domingo, nenhum bicho doido tem coragem de por aqui aparecer, recaiu num domingo.
Tenho meu tempo livre. Aproveito para desovar esta crônica novinha, que não pode ser ajuntada as suas irmãs, pois meu livro novo já está completo. Tendo, inclusive, conforme me confidenciou meu diagramador, que deveria retirar de dentro dele nada mais do que cento e tantos textos. E como é difícil picotar, me livrar, selecionar, umazinha só delas, dentre tantas que me atraem, dentre quase mais de mil, algumas crônicas que irão ficar para uma próxima edição. Se a loucura me presentear com este prazer.
Caímos em mais um domingo. Dez do mês de julho.
Domingo pede cachimbo. E eu já pitei. A primeira vez que baforei quase me engasguei. Soltar baforadas em cachimbo nos faz sofismar. Sobre o quê? Nem sei contar. Dizem que domingo pede cachimbo. Os meus estão guardados aqui pertinho. Escondidinhos do meu alcance. Fumos especiais esperam serem enfiados lá dentro. Acender, saborear aquele cheirinho gostoso, como dele sinto falta. Aspirar a fumaça desdenho. Não sei tragar nem cigarro. A fumaça única que amo é aquelazinha que emerge da cerração fria, que, depois de o sol nascer acaba se convertendo num lindo dia de sol a pino.
Hoje é domingo. Lindo e inspirador para quem aprecia escrever. Escrevo nas segundas. Reescrevo as terças. Nas quartas fica tudo igual. Nas quintas não mando alguém pros quintos dos infernos. Nas sextas continuo as minhas escrevilhanças. Nem nos sábados descanso.
Só por que hoje é domingo deveria ficar na cama? Assistindo às baboseiras da rede Globo? Nem que a porca tussa. Ou que a galinha cacareje. Prefiro fazer dos domingos dias iguaizinhos aos seus irmãos. E por que não escrever??? Só porque hoje é domingo?