Temores vencidos

Medos, receios, pavores, acovardamento, covardia, desânimo, apatia, desbrio, fraqueza, horror, ignávia (palavra pra mim desconhecida), pavor, poltronaria, pusilanimidade; creio haverem outras sinonímias que versam sobre o mesmo tema, tão rico e suntuoso é o nosso idioma, embora tentam ofuscar-lhe o brilho, inserindo-lhe entre linhas e entrelinhas palavras chulas, hoje a internetês e a estupidez machucam-lhe a beleza, pobre daqueles vetustos escrevinhadores, nem seriam chamados doutores, que ousaram escrever corretamente, colocando pingos nos is, chapeuzinho onde se faz direito, vírgulas para refrear o cansaço, quando a frase se alonga demais, ! onde quando se deseja admirar usando um simples sinal, fazendo da pontuação, do parágrafo no lugar correto, e o ponto de ? quando a dúvida persiste, usar o maiúsculo no começo das frases, o ; no momento exato quando se deseja respirar, e, o ponto final, embora nem sempre o final das minhas crônicas agrade a qualquer leitor.

São antônimos, dizem justamente o revés: intrepidez, ânimo, arrojo, audácia, bravura, brio, destemor, decisão, denodo, desassombro, galhardia, heroísmo, falta de vergonha na cara? Essa qualidade deveria ser entendida por todos aqueles que, uma vez insultados, aviltados, voltam a bajular certos políticos, que, apenas às vésperas das eleições escorrem pelas ruas da comunidade, a cata de votos, com aquelas carinhas lambidas, afagando os rabinhos, quando deveriam ser enxotados a ovadas momescas, como tem recebido um tal candidato a presidente que ainda se mostra a frente nas pesquisas, e, se por acaso este vier a vencer o pleito que se avizinha, pego meu passaporte e avoo para Pasárgada, usando como avião as asas negras de um urubu.

Já tive medos. Receios, temores, de muitas coisas.

Em menino brotava dentro de mim pequenino um pavor enorme de uma cruz fincada no alto do pasto, na fazenda onde passava as férias de final de ano, bem acompanhado por umas lindas primas de Varginha, as quais, no presente momento, se trasladaram em avozinhas, como eu sorridente brinco com meus três netinhos.

A seguir, sentindo-me mais entendedor da vida, das nuances nas quais ela se tinta, fui crescendo, sentindo-me mais e mais corajoso, acobertado pelas asas de meus queridos progenitores, e segui em frente.

Agora, depois de ter passado pela fase adulta, ainda não me sinto envelhecido, não me chamem de velho, prefiro ser comparado a um tiozão de cabelos grisalhos, ralos, sempre despenteados, tenho pela palavra medo um certo temor.

Mete-me medo sim envelhecer numa casa de idosos. Local onde meus filhos, netos, aparentados, próximos ou distantes, recusam-se a meter os pés, escusando-se, desculpinhas mal trajadas, que o tempo lhes falta. Mesmo tendo todo o tempo do universo.

Tenho receio de um dia a saúde vier me faltar, precisar passar dias insólitos e insanos num leito de hospital qualquer, sem sequer poder manifestar o desejo de partir, já que apenas meus olhos continuam  entreabertos, minha respiração ofegar, sem poder esboçar um gesto sequer, apertar as mãos daqueles que me são caros, sentir cá dentro um rastro indizivelmente consistente do quanto fui importante enquanto ser vivente, lúcido da minha lucides, ainda compenetrado no fato retrato de que ainda era útil, partícipe de suas conquistas, inserido ainda nas suas rotinas como alguém que um dia conseguiu guiá-los por um caminho seguro, como espero ter feito com minha resumida linhagem de filhos meus.

Antes, na primavera da minha existência, quando estudava naquele colégio cujo uniforme era tinto em verde e branco, o mesmo que dois dos meus netos vestem, temia me declarar àquela meninazinha linda como um ipê florido em amarelo, cujo apelido era “ mentirinha”, pois era considerada boa, apetitosa demais para ser verdade, me cutucava, olhava nos olhos dela, e, daqueles olhinhos verdes, pensava que ela olhava pra mim, quando em verdade ela um dia se declarou apaixonadinha por um amigo. Pena que aquele amigo não era eu.

Tinha medo sim, de um canzarrão, bocarra enorme, dentes do tamanho das presas aguçadas de um leão faminto, o qual, um feio dia, me vendo passear com meu cãozinho chamado Rebel, que de rebeldia nada tinha, de uma docilidade de um maço de algodão doce, que se derretia apenas de ver o calor do sol, esse mesmo cachorrão, ameaçador, acabou pondo fim  a amizade que existia entre mim e meu fiel escudeiro. Naquele local, ermo, escondido entre minhas lembranças fugidias, penso ainda existir uma cruz. Feita usando nacos de saudade e uma dor mais que doida.

Como médico operador, que nunca duvidou da sua competência em abrir cavidades, costurar depois de ter retalhado vísceras, retirar pedras nos rins, e naqueles caninhos fininhos chamados ureteres, eliminar tumores antes que eles pusessem fim à vida de alguns dos meus pacientes, retirar próstatas hipertrofiadas, glândulas aposentadas, as quais, numa vez a gente envelhece, chegamos àquela idade, última passarela que nos conduz ao céu ou ao inferno, não tem nenhuma serventia a não ser entupir-nos o canal da urina, isso quando a tal próstata não se tratar de uma patologia de natureza maligna, que fatalmente irá nos conduzir ao óbito, se não tratada a contento, depois de uma diagnóstico precoce.

Há dois dias atrás criei coragem, perdi o medo que me fazia tremer como vara verde, usada para espantar vacas em fuga, ou, quando sequinha usâmo-la na intenção de pescar, e me fiz internar na  intenção de retirar uma hérnia, conhecida a doença como sendo uma fraqueza da parede abdominal, por onde se insere uma tripa, conhecida por segmento de nosso intestino, fino, e, como dói quando ela cresce, e pode descer, não pelo elevador, e sim até a nossa bolsa escrotal.

Fi-lo aquilo com um certo temor. Internei-me naquele mesmo hospital, aqui pertinho. Entrei pela portaria nova. E como ela ficou bonita e cheia de charme. Fui indicado para subir por uma rampa clara como hoje o céu se incendeia de azul. Dispensei ir de elevador. Cheguei ao apartamento, prestes a ser remodelado.

A espera do momento final. Fui levado de maca por um enfermeiro acostumado àquele oficio a uma das salas onde eu, urologista praticante, hoje médico metido a escritor, mas ainda me considero doutor, a dormir uma sonequinha curtinha, antes de ser retalhado, na virilha esquerda, onde a tal hérnia estufava a minha barriga no andar de baixo.

Não durou mais que meia horinha a tal intervenção cirúrgica. Deixei o bloco cirúrgico em outra maca. Que me fazia olhar apenas pro alto. Sem saber pra onde iria.

Já hoje, neste dia lindo, oito de julho, contrariando as recomendações de prudência me passadas por meu cirurgião, aqui estou.

Tenho certeza que acabei perdendo outros medos. Não mais tenho medo nem mesmo daquela cruz fincada no alto do pasto. Ou das mulas sem cabeça, que soltavam fogo pelas ventas. Ou até mesmo dos contos da carochinha. Das fadas feitas bruxas que usavam vassouras para voar.

Não mais tenho medo de novamente passar pelo fio afiado de um bisturi. Deu tudo certo. A operação foi um retumbante sucesso.

Não mais tenho medo de nadica de nada. Só me mete medo perder a inspiração que tanto bem me faz…

 

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