Tem coisas que a gente nunca esquece.
A primeira namorada. Aquele par de tênis novinho presente de nossos pais.
Aquela vez em que fomos agraciados com uma medalha por termos tirado notas altas. A festa de formatura no primeiro degrau de nossas vidas. Aquele terninho azul marinho, dizem ter sido feito com uma nesga de tecido da calça do meu avô. Aquela vez quando fomos pilhados em fragrante comentando sobre um incidente acontecido anos atrás. E, não me esqueço daquela vez quando a minha saudosa professora, aquela de pernas grossas, me pegou em fragrante delito olhando por baixo da mesa, admirando a cor de sua calcinha. Não foi possível escapar da punição. Passei metade da aula de costas pra a turma, sendo repreendido pelo diretor do colégio, só escapei da expulsão definitiva graças à intercessão da mesma professora, a qual me perdoou, daquela vez apenas, se por acaso eu nunca mais repetisse a façanha, e a presenteasse com notas melhores, já que a aritmética nunca tivesse sido a minha matéria predileta. Nunca mais incorri no senão.
Jamais me olvidei daquela praça de esportes. Defronte a casa onde cresci, fiz-me pessoa juntinho aos meus queridos pais. Pra onde sempre vou o cair das tardes. Foi lá que ajuntei meus melhores amigos. Que comigo jogavam bete, finca, e bolinhas de gude.
Nunca me esquecerei daquele cãozinho pretinho, peludinho, valente, que acabou morrendo em briga com um canzarrão o dobro do seu tamainho, na tentativa inglório de me proteger. Seu nome era Rebel.
Não tenho como me esquecer das primeiras letras que aprendi. Com elas enfileirei palavras, que resultaram em frases feitas, e, tempos depois, já idoso, comecei a escrever livros.
Não tenho como me esquecer daqueles tempos idos, quando ia ao colégio na esperança malograda de conquistar o coraçãozinho daquela garota mimada, que nunca teve olhos para mim. Jamais me esquecerei de quando, numa tarde ensolarada, arrisquei-me a pedi-la em namoro. Fui rechaçado com um singelo olhar de desprezo. E nunca mais repeti o mal feito.
Não consigo me esquecer daquele dia funesto. Já adulto, médico feito, quando fui chamado às pressas àquela mesma casa, da Costa Pereira, quando minha querida mãezinha passava mal, e, depois de levá-la ao hospital ela acabou falecendo em meus braços, sem que nada pudesse fazer, a não ser orar ao pai santíssimo, que a guardasse em bom lugar.
Não posso jamais esquecer, aquele ano fatídico, era finado dois mil, o dia em que meu saudoso pai morreu. Foi uma morte assaz esperada. Pois ninguém merece tamanho sofrimento. Se por acaso eu tiver de me despedir da vida que seja em saúde perfeita, durante o sono, se me permitirem assim.
Não me esqueço jamais daquele dia do meu casamento. Foi puro encantamento. Com a mulher com que sempre sonhei.
Da mesma maneira não me esqueço do dia quando meus filhos nasceram. Primeiro foi um menino. Que hoje se trata de homem feito. Seguiu-se-lhe uma menininha, agora mãe de dois netinhos maravilhosos.
Nunca poderei me esquecer de quando minha saudosa mãe partiu. Da mesma maneira não me esqueço da data do seu aniversário. Ela acontece no próximo sete de junho. Quase não me recordo da minha.
São datas inesquecíveis. São pessoas inolvidáveis.
Ainda me lembro de todas elas. Pois elas são partes indeléveis do meu passado.