Não me diz respeito

Quando a gente tentava fofocar sobre certos assuntos ele sempre me dizia: “não me diz respeito”.

E a conversa abortava. Quase sempre.

Falar de coisas alheias não era do seu costume. O que lhe interessava, isso sim. Tornava a prosa longa. Por exemplo: comentar sobre assuntos da roça. Qual a melhor época para o plantio. Se ele achava que iria chover. Se a tal vaca extraviada acabou parindo no dia previsto. Se por acaso a safra de café seria promissora neste começo de maio. Sobre o preço do leite. Outro assunto sobre o qual era experto, a conversa ia longe.

Mas, sobre futebol, politica, meu amigo Mané desconversava. Ele só costumava opinar sobre assuntos que lhe diziam respeito.

“Que me perdoe, meu amigo”. Desconversava entre dentes. “Tenho mais o que fazer”. Aqui, na minha rocinha, minhas preocupações são outras. Imagine se vou me apoquentar sobre quem iria ganhar a eleição? Quem quer que seja nada vai mudar a minha situação. A última vez que votei foi num candidato que pisou na bola. Era um pretenso candidato a vereador. Que por aqui passou prometendo mundos de fundos. Quando o procurei, já eleito, ele simplesmente virou-me o focinho. E decidi-me nunca mais repetir o voto. Desde então me tornei devoto de uma santinha milagreira. A tal santinha dos desata nós. Caso elazinha um dia se candidatar, aí sim. Meu voto é dela. Pena que gente boa não se imiscui por este caminho tão tortuoso. Que só aparece na casa da gente em busca de nossa simpatia. E, depois de elegido vira a cara para a nossa pessoa. Dai a minha desilusão sobre a tal politica.

Desde os cinquenta anos decidi-me por não comparecer às urnas. Só irei enterrar a minha cédula no caixão quando chegar a minha hora de partir. E, nesta hora bendita, ou maldita, o meu voto vai ser em mim mesmo. Pena que defunto não ganha eleição. Aquele cortejo que vai levar o meu ataúde, disputando as alças do caixão, com certeza serão amigos de verdade. Não falsos eleitores, que alardeiam que votaram neste ou naqueloutro candidato. Mas em verdade trocaram o voto por alguns sacos de cimento. Ou duas dúzias de ovos chocos. Dos quais exalaram um cheiro nauseabundo. Com o mesmo quilate da alma podre de certos políticos que se locupletaram do cargo sem comprimirem as promessas de campanha.

Eu tenho por mim a mesma aversão sobre o assunto que versa sobre  política. Sobre futebol me mantenho calado. Discutir o que não me interessa, pra quê?

Considero que não leva a nada. Corremos o risco de somar desafetos.

Não costumo opinar quando tentam me convocar para votar nesta ou naquela sigla. Pra mim tanto faz. Como tanto fez. Já votei no sapo barbudo. Arrependi-me logo depois. Na outra vez decidi-me por outro candidato a presidente. Ele não fez justiça à confiança que nele depositei.

Agora, já que não sou obrigado a votar, pela minha idade, ainda estou indeciso se voto na tal santinha dos desata nós, ou na minha querida amiga de tantos anos, que infelizmente já faleceu.

Talvez vote em branco. Nada contra os de cor.

Quando, enfim chegar o dia do voto, quem sabe irei comparecer vestindo aquela fantasia da máscara negra. Assim não saberão quem sou eu. E não irão me responsabilizar por outro desgoverno ao qual estamos acostumados.

Não vejo a hora de a eleição passarinhar. Como um passarinho que avoa sem saber pra onde será.

Mas não pensem que não me preocupo com o destino do nosso pais. Com o legado que deixaremos aos nossos descendentes.

Em absoluto.

Em contrapartida mudo de assunto quando ele versa sobre política. Em boca fechada não entra mosquitos muito menos somamos desafetos. Prefiro ajuntar amigos a colecionar inimigos. Nos tempos de agora eles são tantos, tantos, pra quê mais um?

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