Imagine se eu soubesse o que iria acontecer de agora a algumas horas? Ou há alguns dias. Anos, talvez…
Seria como predizer o futuro. Pra mim é melhor que ele esteja envolto numa bruma cinzenta. Inimaginável. Imprevisivelmente indefinido.
Mal sei o que aconteceu no dia de ontem. Estive por aqui mesmo. Acordando a mesma hora costumeira. Foi um dia como os outros. Uma rotinha que sempre me acompanha dia após dia.
Antes das onze horas retornei a minha morada. Almocei precisamente ao meio dia. Tirei um cochilo bem breve. De volta a minha oficina de trabalho, a espera do derradeiro paciente, voltei à casa a fim de malhar na academia. Gostaria de nadar como sempre faço. O tempo frio, ameaçando chover, demoveu-me do meu intento. Fiz uma vistinha breve a minha querida irmã. Rosinha, como sempre, alegrou-se naquele momento. Voltei ao meu apartamento caminhando lentamente pelo mesmo trajeto costumeiro. À sombra das sibipirunas, árvores de rica sombra, destruidoras de calçadas, as mesmas que sempre ensombraram aquela mesma rua. Creio que elas foram plantadas anos atrás. São frutos de alguma pessoa que porventura tenha trabalhado naquele mesmo colégio onde estudei. Quando jovem ainda. Trasanteontem aconteceu quase a mesma coisa. Repito sempre o mesmo percurso. Do apartamento ao consultório, bem antes das seis da manhã. Escrevo antes das oito. É quando o médico começa a atender os consultantes. Quando eles por aqui aparecem.
Confesso que a indefinição me acalenta. Não saber precisamente o que vai acontecer de agora a alguns momentos. Vivo sem imaginar o que será de mim. Uma hora depois. No entardecer. O que vai ser durante a noite. O dia do amanhã nem desejo adivinhar.
Um dia, subindo ou descendo a rua, deparei-me com uma cigana tentando ler as linhas das mãos. Em troca de duas moedinhas permiti que ela assim o fizesse.
Aquele simpática moça, decerto oriunda de um acampamento que mudava sempre, depois de alguns minutos disse-me, com olhos sombrios, que eu estava prestes a ter um acidente de suma gravidade. De fato. Escorreguei-me numa casca de banana e fui ao chão. Por sorte essa queda não teve consequências maiores. Levantei-me e segui adiante. Daí em diante passei acreditar nos vaticínios. Sempre olho no espelho ao acordar. E a ele imploro como ele me acha. Aquela superfície espelhada sorri da minha cara. E diz, com um sorriso de mofa: “você está ficando velho”. Tento não contrariar a sua predição.
Sempre a indefinição contribuiu para aumentar ainda mais a felicidade que brota dentro do meu eu. Melhor ficar assim. Sem saber, ou sequer imaginar, quantos anos mais viverei. Até quando vou poder pensar, escrever, acordar ao nascer do sol, exercer esta profissão tão linda. Até quando irei poder caminhar pelas próprias pernas. Se por desventura um dia ver-me privado de correr, cumprimentar amigos, servir a quem precisa dos meus préstimos, ai sim, não mais terei motivos para viver.
Considero a vida desde que ela seja vivida em intensidade plena. Quando não mais puder enxergar o brilho do sol, a amarelice da lua que nasce, a chuva que enverdece as pastagens, o canto dos canarinhos da terra ciscando o esterco do curral, o grasnar das maritacas no tempo das jabuticabas maduras, aí sim. Não mais terei motivos para continuar vivendo.
O não saber o que está reservado num outro amanhã em verdade me encanta. Prefiro a indefinição do desconhecido. Ignorar, seguir em frente, correr atrás dos meus objetivos, não desistir nunca, sempre fez parte daquilo que penso desde quando menino ainda.
Nunca quis saber qual presente o Papai Noel iria deixar debaixo da minha árvore de Natal.
Dentro daquelas caixas coloridas imaginava o que estaria dentro delas. A indefinição do que seria sempre me cativou.
Como até hoje me cativa não saber o meu porvir.
Encantam-me as indefinições. Só descubro o tema dos meus escritos quando ligo o computador. Não antes. Só depois.