A coisa tá preta

Essa fala de natureza racista se reflete na associação entre preto e uma situação desconfortável, desagradável, difícil, perigosa.

Um poeta cantou estes versos:

“Vamo nessa”. Ei, pela minha raça não tem amor. Lava a boca para falar da minha cor. Se eles quiser provar o sabor, peça benção para bater no tambor.

Nunca age. Nunca fala. Que a melanina vira bengala. Só porque fugimos da senzala querem dizer que nós é mala.

Abre alas, tamos passando. Policia no pé, tão embaçando. Orgulho preto manas e manos. Garfo no crespo, tamos se amando. De turbante ou bombeta vamo jogar e ganhar de lambreta. Problema deles não se intrometa. Olha a coisa tá ficando preta. Essa batida faz um bem, diz da onde ela vem. Corpo não para de mexer da até calor. É vitamina pra alma, melanina tem. E todos podem degustar desse bom sabor. Vamo, vamo, vamo. Sem corpo mole mole mole. Tamo no corre corre corre. A coisa tá preta, preta. Vamo vamo vamo. Sem corpo mole mole mole. Tamo no corre corre corre. A  coisa tá preta, preta preta. Ritmo tribal no baile nós vinga. Cada preto se sente Zumbi. E cada preta se sente a Nzinga. Pinga quica, pinga quica. Querendo uma brecha, toma bica. Misturou a essência fica. Açúcar mascavo adocica. Sangue de escravo não de rei. Na onda do estéreo história prolongo. Não rola mistério, sou Manicongo.

E  o poema nunca termina. Vai por aí afora. Se por acaso terminasse o poema não sei se sobraria espaço para falas de minha autoria. Pois considero preto meio irmão. Não tenho por que me envergonhar desta cor tao linda. Pois a jabuticaba é tinta de preto. E que fruta docinha lhe confere a cor.

Voltando ao assunto deste tema indigesto e insípido, convenhamos que esteja coberto de razão. Preto não enseja incompetente. Negra pode ser a alma de muito branco metido a besta.

A minha primeira babá tinha o negrume na cor. Hortênsia foi quem me ensinou a ser gente. Graças a ela me tornei a pessoa que hoje sou.

Nada contra os pretos. Embora nestes tempos nada alvissareiros eles se sintam menosprezados por causa da cor.

No entanto hão de concordar comigo. A coisa anda preta. Não só na cor da jabuticaba madura. Do asfalto que antes era piche. Do anu preto que nasceu branquinho como algodão.

Os preços andam pela hora da morte. Em contramão da renda que navega na via contrária.

A alta se reflete em nossos bolsos vazios. O salário nunca foi tão mínimo como se mostra agora. O desemprego salta aos olhos. Mendigos mendigam migalhas. Mãos estendidas em busca das sobras.

Há muito tempo não se via uma situação tão calamitosa. Hoje se vende a janta para almoçar no dia seguinte. O preço do gás subiu às alturas. O da gasolina o acompanha.

Jovens vivem às expensas dos pais. Hoje recebi a minha aposentadoria. Se vivesse às custas dela não sei que seria de mim.

A inflação galopa como um cavalo bravio. Não se pode mais prever quanto se vai gastar no supermercado amanhã ou no dia seguinte.

Estamos passando por tribulações de naturezas várias. Não só no que diz respeito aos salários. Ao desemprego. A falta de perspectivas de crescimento.

Não restam dúvidas que a coisa anda  preta. Consultórios vazios. Comércio fechando as portas. Anúncios de vende-se pipocam por aí.

Nada contra os pretos. Não sei por que acharam de comparar essa cor tão linda com a crise que se mostra.

Ela deveria ser chamada de cinza plúmbeo. Ou marrom tinto de amarelo fumaça.

Preto, negro, são cores que me inspiram coisa boa. Nunca a situação por que estamos atravessando.

A minha sugestão é que  mudem o nome para a coisa tá ficando melhor. De qualquer cor. Deixem o preto sambar na avenida. Ou fazendo poesias mesclando felicidade com alegria. Sentimentos tão em falta nestes tempos sombrios, cinzentos, desprovidos de qualquer matiz de cor.

Que muito em breve possamos chamar estes tempos bicudos de  tempos com a cor do arco-íris.  Depois de uma chuva que recém caiu e um dia vai voltar.

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