Cada dia é sempre igual.
Acordamos a mesma hora. Dormimos antes das dez e meia. No meio da noite sonhamos, de olhos abertos, o que fazer no dia seguinte.
Como seria bom mudar nosso cotidiano. Não ter de acordar cedo. Permanecer na cama até quando o desejo ditasse. Nada fazer a não ser continuar naquele soninho gostoso. Sem precisar trabalhar. Enfrentar mil leões a cada dia. E as contas que esperassem melhores dias. E eles viriam por certo. Antes que a gente esperasse.
Mas nem sempre isso acontece. A vida nos ensina que somente os bravos, os fortes, conseguem ir adiante. Quem não trabalha não vence. Nem com a sorte lhe batendo às portas. Conheço muita gente que ganhou na loteria e perdeu fortunas enormes. Por não saber administrar e não soube aproveitar aquilo que percebeu graciosamente.
A vida seria mais suportável caso acontecessem mudanças.
Mudar a rotina seria como tomar água fresca num dia de calor intenso.
Não ter de acordar ao nascer do sol. Dormir sem pensar no que nos espera no desenrolar do dia. Não ter contas a pagar. Ter um salário que nos permitisse viver folgadamente. Sem nunca precisar entrar no vermelho.
Desde quando era jovem pensava em me aposentar. Deixar de trabalhar. Passar o dia inteiro de papo pro ar. Assentar-me a um banco de jardim. Rever amigos. Jogar conversa fora. Fazer apenas e tão somente o que me apraz.
Mas este sonho terminou em pesadelo. A renda não era suficiente para encarar as despesas. Aos mais de setenta anos, bem vividos, teria de continuar na mesma rotina.
Encarando o trabalho costumeiro. Ter de atender pacienciosamente, mesmo que do outro lado predominasse a impaciência, tendo de ouvir as mesmas queixas, já que mundo não se transforma. E a gente não consegue mudar o status quo. Mesmo que o nosso desejo se manifeste ao contrário ou a favor.
Não depende de nós tentarmos mudar a rotina. Ela nos abocanha com suas mandíbulas fortes, com sua gula insaciável. E a vida não muda.
Apesar dos pesares a gente tem de continuar a ir em frente. Pois dizem que atrás vem gente. Que nos atropela com a pressa costumeira.
Um amontoado de pessoas pensa da mesma maneira. Quem me dera mudar a rotina.
Não ter de acordar cedo. Permanecer no leito até quando a vontade ditar.
Sem ter de trabalhar. Ganhar salário com certos jogadores de futebol. Desfrutar de uma fama imerecida. Como se fossem ícones de verdade. Conquanto, no meu conceito, verdadeiros ídolos são aqueles que empunham enxadas, salvam vidas, e, ao final do mês o ganho mal lhes permite uma vida digna.
Dignifico sim aqueles que fazem da rotina costumeira uma forma meritória de pagar as prestações, que não terminam nunca, que ao final da semana pensam em descansar, e, no entanto, a mesma rotina os espera. Nem direito a férias estes verdadeiros heróis têm a desfrutar. Já que as contas estão atrasadas. O preço do gás mal lhes permite cozinhar. O carro continua sem rodar. Os filhos são matriculados em escolas públicas. Sem direito a merenda. Nem à condução que os leve novamente a casa ao final da tarde, quase noite.
Ah!, se pudesse mudar a rotina. Pena que ela persiste do mesmo jeito.
Acordo sempre ao nascer do sol. Saio de casa sempre a mesma hora. Por sorte o trabalho me espera. E, se por acaso, um dia ficasse desempregado?
Aí sim. Agradeço a rotina que me acompanha desde quando me entendo por gente. Se fosse ao revés seria infeliz.
Só tenho a agradecer mais um dia maravilhoso que nasceu neste três de maio. O dia do trabalhador passou. Dou-me por satisfeito por ainda ser capaz de trabalhar a cada dia.
Quando não mais puder, aí sim. Não mais tentarei mudar a rotina.
No meu epitáfio, quando eu não mais estiver entre os vivos, podem dizer que não foi a rotina a minha causa mortis. E sim por que tive, afinal, de ver meus dias terminados. Cada um tem a sua hora. Espero que a minha caia num trinta de fevereiro. Nunca num dia lindo como o de hoje.