Sitio Paraíso

Por vezes me intriga o que seja em verdade o paraíso.

Segundo versa o livro sagrado paraíso é um jardim aprazível onde Deus colocou Adão e Eva depois da criação. Éden quer dizer a mesma coisa.

No sentido figurado trata-se do lugar onde reina a felicidade. Seria o mesmo que céu.

E aqui, neste planeta lindo, a definição de paraíso não caberia? Muitos aqui vivem num verdadeiro paraíso. Já outros vivem o inferno em terra.

Tudo depende de como encararmos este lugar idílico. Do prisma que o vemos. Da maneira que convivemos.

Pra mim a vida tem sido um mar de espinhos alternados com rosas em botões floridos. Mais alegrias do que tristezas. Mas felicidade que propriamente incertezas.

Não existe felicidade plena.  E onde poderíamos encontrá-la? Pra mim não em lares abastados. Ela reside, na minha concepção, na singeleza do singelo. Naquele abraço fraterno que oferecemos aos amigos. Na tranquilidade, na paz de espirito, na bondade que deveria existir pelos quatro cantos. Mas, nem tudo são flores. O paraíso pode ser encontrado onde menos se espera. Naquela casinha simples. Num cenário paradisíaco. Na solidariedade que deveria percorrer diversos caminhos.

Desde quando comprei a minha rocinha ali pertinho conheci um casal de amigos.

Eles moram num pedacinho de chão onde mal cabem duas vacas e seus bezerrinhos famintos.

Várias vezes os visitei. Fui recebido com fraterna cordialidade.

Dona Maria, e Seu Mané Felizardo, bem faz justiça ao seu segundo nome. Pois dentro da simplicidade onde moram ele se considera uma pessoa feliz.

Jamais o vi contrariado. Um sorriso iluminado me faz sorrir das minhas desventuras.

A derradeira vez em que ali estive não os encontrei. Soube, pela boca de terceiros, que o desafortunado Seu Mané acabou caindo num mata-burro. A motocicleta que pilotava, sem aptidão para tal, acabou desabando no espaço entre as réguas. Seu Mané, sem a quem recorrer, passou maus bocados com a perna fraturada. E foi resgatado horas depois do infausto acidente.

Na próxima visita eles já estavam em casa. Uma casa que nunca termina. Mas sempre pronta a receber a familia que mora longe.

Seu Mané, e dona Maria, donos do sitio Paraiso, fica pertinho de uma represa. Lá em baixo fizeram um condomínio de gente da cidade. Eles não se opuseram em oferecer uma nesga de chão por onde passasse a estrada.

No último final de semana os encontrei. Foi pertinho da minha roça.

Não tive de tempo para parar um cadiquinho.

Assim que apeei, na minha casa beira lago, apareceu o amigo Mané Felizardo. Com ele não estava a dona Maria. Minha paciente de outras feitas.

Ele cumprimentou-me efusivamente. Demonstrando sinais de amizade genuína. De fato há tempos não o via.

Seu Mané, com aquele jeitão espevitado, gostaria de saber o que estava afligindo sua amada esposa. A sola do seu pé mal podia relar no chão. Estava de dar dó a coitada.

Como não poderia examiná-la naquela hora tardia pedi-lhe encarecidamente que ambos comparecessem ao meu consultório. Não era da minha especialidade aquele queixume misterioso.

Foi ontem o acontecido.

Seu Mané, e dona Maria, aqui comparecerem pontualmente à hora marcada. Levei-a a sala de exame. Meu diagnóstico não foi outro senão um enorme cravo plantar.

A seguir encaminhei-a a um podólogo. Pelo telefone andejo custei a encontrar o número exato.

A esta hora, deste dia dez de maio, imagino que o simpático casal já deve estar no seu lugar no paraíso.

Não neste céu azul que hoje amanheceu. Muito menos no jardim do Éden.

Pessoas como eles de fato moram num paraíso encantado. Na simplicidade que me encanta. Nas suas bondades infinitas.

Agora sei a exata definição de paraíso. É ali pertinho. Trata-se de uma casinha iluminada. Simplesinha. Sempre pronta a receber amigos.

 

 

 

 

 

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