Ainda me lembro da minha primeira professora.
Seu nome era Dona Beliza.
Com ela aprendi as primeiras letras. Logo se sucederam outras. O alfabeto inteiro foi-me dado de presente naqueles idos anos de antigamente.
Depois aprendi, com as letras, a formar palavras. Elas sempre me encantaram.
Com o tempo passando fui me apaixonando pelas frases. Pelos versos não consegui fazê-los ressuscitar. Nunca fui poeta. Muito embora os meninos do condomínio, onde morei, depois me mudei, me apelidaram de poeta-atleta.
Ao revés de minha filhota, ela sim, fazia versos como uma poetisa inspirada.
Eu, seu pai, anos mais tarde, atrevi-me a começar a escrever. Comecei pelas crônicas. Elas exibiam aliterações fonéticas não intencionais. Rimava sem intenção de fazer versos.
O primeiro texto escrito foi na noite quando meu amado pai partiu rumo ao infinito. Ela tem o nome de Réquiem a um pai sem limites.
Depois não parei mais. Se pudesse contar quantas crônicas escrevi, até na presenta data, o número exato extrapolaria mais de dez mil. Não sei em quantos livros elas caberiam. Fazendo as contas, cada livro editado contém cerca de duzentas, dividindo dez mil por este numeral, perfariam cinquenta livros. Seria um amontoado de compêndios que encheriam as vistas de qualquer leitor. Tornando quase impossível desovar todos eles. Já que livros são de difícil comércio, soberbamente de escritores desconhecidos. Que não se tornam conhecidos por falta de marketing. E passam a vida inteira tentando ir adiante sem no entanto conseguir atingir seus objetivos.
Não importa. O que conta, na minha modesta opinião, é tentar incutir cultura, espalhar letras ao léu, amealhar leitores, como aconteceu no dia de ontem, quando alguém me interpelou na rua dizendo que não perdia um só texto meu postado no face.
Hoje, vinte e nove de abril, prestes a fechar os olhos este mês ensolarado, em pleno outono, dia lindo, céu azul, trata-se de um cumpleanos de uma pessoinha admirável. Não vou dizer quantos anos ela completa nesta data. De mulheres não se deve contar anos. Pois a cada ano que passa elas parecem mais jovens.
Ela veio do sul. Gauchinha de pele clara, cabelos castanhos, inteligência acima da média.
Sou testemunha do seu esforço para chegar até onde está hoje.
Ela sempre estudou em escola pública. Graduou-se em biologia. Não satisfeita queria mais. Ainda me lembro do dia em que a conheci. Ela não me foi apresentada.
Encontramo-nos a espera da sessão de um filme. Nem sabia qual era seu nome.
Foi meu filho quem nos apresentou.
Naqueles idos anos soube que aquela mocinha clarinha fazia mestrado na universidade federal de Lavras.
Mais anos se foram. Aquela menina moça, novinha uma rosa em botão, desabrochava para a vida cheia de sonhos.
A biologia era seu caminho. Mas ela queria mais.
Mais tarde, já doutora feita, gostaria de ir mais longe. Os pampas gaúchos, naquela cidadezinha fronteiriça chamada de Palmeira das Missões, que quase não consta nos mapas, assistia, embasbacada, a caminhada solitária daquela meninazinha esforçada em busca de voos maiores.
Depois ela avoou, junto ao meu filho advogado, rumo a um destino longínquo.
A Holanda, país das petúnias e dos moinhos de vento, foi o destino que a propiciaria alçar voos mais altos ainda. Ela não se contentava com o doutorado. Tornou-se pós-doutora.
Ali permaneceram por meses e meses. Que frio passaram. Quase enregelaram no inverno.
Quando, em visita ao casal, assisti a um laguinho congelar. Uma penca de patinhos ficou ilhada no meio do lago congelado. Tudo era branco no entorno. Frio ao exagero.
Dali voltou aquela mocinha encantadora.
Um casal que até hoje não se desgruda, como daquela vez defronte ao cinema.
Elazinha é especialista em canabis sativa. Muito embora, creio eu, que nunca tenha experimentado um baseado.
Seus estudos já são reconhecidos e reverenciados naquela universidade de ótimo conceito. Logo aquela plantinha proibida vai se transformar a vida de muitas crianças. Sabe-se que o THC tem propriedades medicinais miraculosos. E ninguém melhor que aquela menina para explicar em detalhes quais são eles.
Aquela menina estudiosa, mãe extremada, de nome Vanessa, hoje faz mais um aninho.
Gael é quem vai assoprar as velinhas. Stenio deve estar orgulhoso da mulher que conquistou.
E nós, da familia, vamos estar juntos para continuar admirando a sua trajetória vitoriosa.
Um dia a maconha não mais vai ser considerada droga nociva. Graças aos estudos daquela mocinha clarinha, oriunda do sul do Brasil.