Mais um carnaval que passou…

Tomara no ano vindouro as festas momescas aconteçam no tempo certo.

E esta pandemia já tenha terminado deixando um rastro de acontecimentos funestos atrás de si.

Tenho saudades daquela Colombina ingênua. Que mal sabia beijar na boca. E aquele inocente Pierrô? Por onde anda aquela fantasia de máscara negra?  Será que ela se foi? Ou partiu a espera de dias melhores?

Doces lembranças daqueles carnavais que passaram. Não das festas nas avenidas. Muito menos das escolas de samba que desfilavam fantasias luxuosas, a custo inimaginário, fora das posses dos modestos passistas, gente simples das favelas, que desciam do morro sem saber o que teriam pra comer no dia do amanhã.

Aqueles carnavais passados, quando nós, moleques ainda, cheirávamos lança perfume, e, levemente embriagados, vomitávamos o conteúdo gástrico no sofá novinho da casa da sogrinha que sorria ao nosso destempero etílico.

Traz-me saudades imensas daquelas menininhas pudicas, que só de olhar em nossa direção ruborizavam-se todinhas, juravam que eram castas, muito embora já tenham se deitado com o primeiro namorado, que se não foi o primeiro não será o derradeiro.

Tenho lembranças ternas de quando pulávamos carnaval naquele clube mais que centenário. Sempre aos olhares vigilantes do pai da mocinha. Que quase sempre era ludibriado. Pois a gente logo escapava em direção àquela mesma praça. Assentados no mesmo banco. E a noite rolava solta. Inocentemente a gente devolvia a prenda. Ainda imaculada. À família da moça. Mal sabia ela que a gente não era o primeiro. E não seria o último a beijar aquela boquinha tinta de batom vermelho.

Tenho saudades verdadeiras daqueles velhos carnavais. Sem malícia, sem arruaça, sem brigas na porta do clube, sem que nada acontecesse de trágico, festas que deixaram sua marca em minhas lembranças tintas de saudades tantas.

Abril quase se despede. Logo adentra maio. Aquele carnaval fora de época passou. Quase em branco. Aqui, em nossa cidade, não se viram festas. Nem desfiles.

As máscaras que se usam agora mal escondem a nossa verdadeira identidade. São máscaras que se dizem protetoras. Ainda bem que muito em breve elas vão cair de moda.

Mais um carnaval que passou. Passaram-se anos. Os tempos são outros.

Agora, não mais jovenzinho, como aquele menino de cabelos topetudos, não mais desfilo na avenida.

Agora desfilo pelo palco da vida. Corro atrás dos meus netos. Que se fantasiam não mais de pierrôs e colombinas.

Hulk, Homem Aranha, Capitão América, Fantasma, são da preferência dos meninos de agora.

Já eu prefiro a mulher maravilha. Já que todas as mulheres são pra mim maravilhosas.

Aqueles velhos carnavais deixaram ricas recordações. Aquelas fantasias me inspiravam.

Agora, nestes tempos modernos, não mais trago dentro de mim aquela mesma alegria costumeira. Deixei a máscara guardada no armário.

A velha colombina foi esquecida. Sou como um velho triste e nostálgico pierrô apaixonado pela mesma colombina. Aquela não mais menina com a qual me assentava ao mesmo banco do jardim.

Adeus aos carnavais passados. Adeus à velha máscara negra. Adeus à folia.

Agora, nesta idade que me contempla, não me resta nada mais do que esperar por melhores dias. Quando, afinal, como num passe de mágica, quem sabe vai retornar a mesma alegria dos velhos carnavais passados.

E esta máscara que agora se usa fique dependurada pra sempre num pedestal como símbolo de coisas ruins que felizmente tiveram fim.

 

 

 

 

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