O ontem se foi. Hoje é o recomeço. Amanhã uma incógnita

Quase abril fecha os olhos.

Maio entra a seguir. Junho o frio intensifica. Julho antes celebrávamos o mês de férias escolares. Agosto os ipês já estão floridos. Setembro entra a bendita primavera. Outubro as chuvas retornam. Novembro quase o ano se despede. Afinal nasce dezembro. O derradeiro mês do ano. Mês quando nasci.

Assim sucedem os dias. A gente nasce, passamos pela juventude, daí nos tornamos adultos, envelhecemos.

Trata-se de uma sucessão de épocas distintas. E, quando a gente menos espera, chega a hora de nos despedirmos da vida.

E a morte vem sem mandar recado. Muitas vezes ela se anuncia prematuramente. Em plena juventude despedimo-nos da vida. Por motivos trágicos. Quase sempre.

Desde quando passei de certa idade, tenho registrado hoje mais de setenta, tento não pensar no quanto tempo ainda me resta. Simplesmente vivo o presente. Não me desgrudando do passado. Das boas lembranças que ele me traz.

Ainda me lembro da minha infância perdida. Quanto tinha a idade dos meus netinhos. Dizem que o Theo se parecia comigo. Aquela fotografia, eu nos braços da tia Cida, lourinho, naquela pracinha de Boa Esperança, era tal e qual o Theo se mostra nos dias de hoje. De cabelos encaracolados. Faltando dentinhos na parte de cima. Serelepe como são os outros dois. Dom e Gael não fogem à regra.

Pena que o ontem se foi. O agora é que conta. O amanhã penso estar reservado a um amontoado de indefinições.

Por isso tento viver não me desvencilhando do passado. Remando contra a correnteza da vida. Esperando por dias melhores. Que por certo virão.

Por vezes o nosso caminho se torna tortuoso. Cheio de encruzilhadas. De morros e descidas.

A gente não sabe o que vem pela frente. Apenas vive e não pensa senão em driblar as adversidades. E por vezes elas são muitas. Mas nada que nos impeça de seguir adiante.

Tropeçamos. Vamos ao chão. Levantamo-nos. Sacudimos a poeira e damos a volta por cima.

Pois não sabemos o que nos reserva o amanhã.

Estamos quase no final de abril. Logo maio se mostra. Junho minha mãe fazia aniversário. Em começo de agosto era a data natalícia de meu saudoso pai.

São datas que não me esqueço. Outras deleto das minhas lembranças.

Mal sei o que se passou no dia de ontem. Já aqueloutras, oriundas do meu passado, faço questão de guardá-las aqui dentro. No âmago do meu cerne.

Bem sei que o ontem se foi. Hoje é vinte e sete de abril. Precisamente sete horas da manhã.

Acordei a mesma hora de sempre. Amanhã acredito que se dará o mesmo.

Mas não sei o que reserva o amanhã. Se estarei por aqui. Teclando as teclas negras do meu computador. Não costumo imaginar o meu porvir. Simplesmente vivo. Aproveitando ao máximo o tempo que me resta.

Não sei quanto dias me esperam.

No entanto, quando a minha hora chegar, espero estar preparado para receber a morte.

Que ela chegue durante o sono. Nunca num leito de hospital. Que me despeça da vida em saúde perfeita. Como um passarinho que por infelicidade bateu de cabeça numa superfície espelhada. Tendo morte súbita.

Bem sei que o ontem se foi. Que o hoje renasce das cinzas de um ontem que se despediu durante a madrugada. Bem como de um amanhã que espero ser melhor que os dias que o antecederam.

E espero que as incógnitas sejam vencidas. Mesmo que alguns tropeços se interponham entre a felicidade que sinto por ainda estar vivo, em plena saúde e clarividência. Até quando? Não sei…

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