Aquele foi seu último amanhecer…

A gente nunca pensa no que vai acontecer no dia de amanhã.

Melhor assim.

Viver o presente. Sem se desgrudar do passado. Seguindo em frente. De quando em vez dar uma olhadinha em direção ao ontem. Pois não se vive o presente sem que o passado não nos apoquente. Pois foi lá que começamos. A passos titubeantes. Guiados por nossos pais. Que vieram ao mundo graças à intercessão de nossos avós.

Quem diria que hoje me tornei avô?

Ainda me lembro dos meus.

Por parte de pai o meu avô era um senhor sisudo, assinava Abreu, ex-carpinteiro aposentado da rede ferroviária. Que me deixou exemplo de seriedade. Ele era intimantemente ligado à igreja católica. Talvez tenha seguido seu exemplo por ter ido à missa nos velhos anos de minha meninice peralta.

O outro avô, sempre de terninho azul marinho, com riscas de giz, e um suspensório que lhe segurava as calças, andarilho por vocação, caminhava por toda a cidade com aquela sandalinha de couro marrom, trazendo no bolso da calça um caderninho onde anotava todo aquele que lhe devia. Meu avô Rodartino Rodarte deixou entre nós um legado de ter registrado quase todos os matrimônios acontecidos em nossa cidade há tempos atrás.

Deixando a saudade de lado, embora tentando viver o presente, sem deixar de me lembrar do passado, bem me recordo de um senhor, bem vivido, que, quando beirava os oitenta anos aqui compareceu se queixando de um mal estar que ia e voltava, sempre ao acordar, uma dorzinha incômoda que o fazia arfar de cansaço.

Seu nome, bem me lembro, embora esse acontecimento tenha sido há anos atrás, era Bento de não sei o quê.

Era um senhor bem apessoado. Vestia um terno azul. Quase igualzinho aquele do meu avô Rodartino.

Quando ele assentou-se à cadeira, defronte a minha, reparei que ele vinha solitário.

Não tinha acompanhantes.  Era lúcido e bem falante. Exibia traços de fidalguia em sua cara bem sulcada em anos.

Comecei o interrogatório perguntando-lhe o que o trouxe aqui.

“Foram as minhas pernas”. Troçou comigo.

Não tive como sonegar um sorriso.

Ao cabo de alguns minutos ele se abriu comigo.

“Creio que estou passando da idade de examinar a minha próstata. Embora não sinta nada me aconselharam a fazê-lo. Já fiz o exame de sangue. Trouxe-o para que você me esclareça”.

Depois de uma boa prosa, pensando já estarmos familiarizados, levei-o à sala de exame.

O toque foi feito num relance. Não haviam dúvidas. Era uma próstata endurecida, nodulosa, de consistência pétrea. Um câncer de próstata já bem avançado. O exame do PSA saltava às alturas.

Voltamos a minha sala. Expliquei a ele a desenvoltura de sua doença. Em detalhes menores.

Não indiquei a biópsia para não injuriá-lo ainda mais. Saltava aos olhos a natureza da sua patologia. Aprendi, nestes anos todos de prática da medicina, que se deve tratar o doente. Não a doença que o aflige.

Seu Bento me agradeceu o atendimento. Passamos mais de hora e meia explicando-lhe o que poderia acontecer no futuro.

E ele compreendeu todas as explicações.

Tempos depois, um ano inteiro se foi, procurei saber noticias do meu paciente.

Por um parente próximo soube que Seu Bento havia falecido nesta manhã cinzenta do mês de abril.

Hoje, vinte e seis do mês corrente, foi seu derradeiro amanhecer.

 

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