A cegueira não lhe turva a visão

De vez em quando penso, de olhos fechados, o que seria de mim caso perdesse a visão.

De repente. Não mais que num repente não mais enxergasse. E minha vista fosse apagada. Meus olhos se embaciassem. Não poderia ver a luz do sol. A chuva que cai. O amanhecer cinzento como acordei neste dia de hoje, ventoso, escuro, neste vinte e cinco de abril.

Não sei o que seria de mim. Talvez me tornasse infeliz. Uma depressão profunda se apoderasse de minha pessoa. Que sempre enxergou além das entrelinhas. Pois um dos bens que mais prezo em verdade é a minha visão.

Como seria meu comportamento tateando às escuras? Apoiando-me numa bengala. Precisando de ajuda para atravessar as ruas. Sendo motivo de piedade de terceiros.

Enxergar, poder olhar o que se passa no entorno, poder ler letras miúdas, sem carecer de óculos de lentes grossas, considero uma dádiva divina.

Um dia tive de ser operado de duas lentes que começaram a embaciar a minha visão cristalina.

Elas foram trocadas por lentes que hoje me propiciam enxergar perfeitamente sem carecer de óculos. De vez em quando faço uma visita a um colega de outra especialidade. Talvez seja o único médico ao qual compareço regularmente.

Pois considero a minha visão uma benção a ser cultivada desde quando assumi a idade mais provecta.

Tenho um amigo, o qual de vez em quando malha comigo na academia, que perdeu a visão desde quando menino.

Tonho, sempre simpático e cordial, massoterapeuta há anos idos, nunca o vi ensimesmado, sempre com um sorriso incontido, é um exemplo vivo de que nem sempre a visão é essencial.

Ele vem de longe ao clube onde frequentamos. Toma uma condução para chegar ao nosso destino.

Quando apeia vem caminhando lentamente, amparado por uma bengala companheira, de óculos escuros, de vez em quando ofereço-lhe o braço para que ele não se perca pelo caminho. Ele agradece o oferecimento.

Quando meu amigo Tonho se cansa, aparece um dos professores solícitos ajudando-o a chegar à sauna. Onde ele trabalha quase todos os dias.

Tonho parece não se preocupar com a amaurose total. Ele é feliz a sua maneira. Lê em braile graças à ajuda de seu tato apurado. Aprendeu a identificar pela voz todos nós que o conhecemos. Quase não precisa de ajuda para viver em intensidade plena.

Tonho, bonachão, torcedor cruzeirense, é cego desde quase nascido.

Vive sempre sorrindo. Distribuindo simpatia a todos com quem convive.

Pra mim a visão é um bem por demais precioso. Ela me permite olhar e admirar tudo que me passa adiante. Sem ela não sei o que seria de mim. Fui acostumado a ter olhos de lince. Daí a minha dependência total a antever o que se passa no entorno. Sou dependente de ler ou de escrever. Se por acaso, algum dia, ver-me privado da vista, talvez seja melhor me despedir da vida.

Para o amigo Tonho a cegueira em absoluto não lhe turva a visão. Ele aprendeu a ler entre as entrelinhas.

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