O Quase…

Que dia lindo amanheceu neste vinte e dois de abril.

O outono veste as suas roupagens magníficas. Sol a brilhar na azulice do céu.

Nenhuminha nuvem a empanar no seu brilho.

Amanheceu um dia fresco. No decorrer do dia deve esquentar.

Acordei com uma sensação de deixar o apartamento antes dos meus netinhos acordarem.

Theo e Dom dormem noutro quarto. Mais tarde devo levá-los a sua casa. Já que ambos precisam ir à escola depois da volta do dia.

Fazer o papel de avô não é nada fácil. Principalmente quando aqueles dois menininhos estão por minha conta. Ai que saudades da babá.

Não me acostumei, desde quando meus filhos nasceram, a trocar suas fraldas. Falta costume. E uma dose de inexperiência talvez.

Agora, quase um século passado, eu envelhecido, em absoluto não sinto cansaço. Só um pequeno detalhe me acarinha. Não tenho a capacidade de acompanhar seus passinhos lépidos, correr atrás deles, acompanhá-los em suas traquinagens.

São dois peraltinhas aquelas crianças, como talvez eu tenha sido um dia. Quase não me lembro dos tempos passados.

Minha memória vagueia até poucos anos atrás.

Naquela casa, da Rua Costa Pereira, que agora foi reduzida a um lote vazio, prestes a começar uma construção, brincava eu na companhia de alguns amigos. A maioria já partiu rumo a um destino ignorado. Talvez seja este céu azul que nesta manhã me contempla.

Tenho um amigo, cujo nome talvez tenha me esquecido, apelidei-o de Quase, que sempre que marcamos  encontro está atrasado.

O Quase nunca chega na hora. Quando pergunto qual o motivo do seu atraso ele me responde: “quase chego na hora. Perdoe-me. Da próxima vez não me atraso”.

Quase sempre, via de regra, concedo-lhe o perdão. E ele promete, de joelhos até o chão, que não vai se atrasar novamente.

Mas quase sempre não cumpre o prometido. E atrasa novamente.

Hoje, neste dia maravilhoso, lembrei-me do amigo Quase.

Meus netinhos dormem ao lado do meu quarto. Acordei e fui à padaria. Cheguei ao apartamento quase pontualmente às sete da manhã. Não tive coragem de acordá-los daquele soninho gosto. Fiquei no quase para não conter meu ímpeto.

Agora, quase oito da manhã, me preparo para voltar ao apartamento. Vou esticar este final de semana até quando a segunda vier.

Quase ia me esquecendo do amigo Quase.

Aquele que diz que nunca atrasa. Mas fica devendo a promessa que fica sempre no quase.

Ai que saudades da minha infância perdida. Quando tinha cinco aninhos. Quase antes disso ia à escola. De merendeira às costas. Todo feliz por prometer aos meus pais que não iria me atrasar na volta.

Pena que os tempos mudaram. Agora quase sempre me esqueço das promessas que fiz desde então.

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