O tempo passa e as tribulações se diversificam

Nada a fazer contra a passagem dos anos.

Eles passam velozes como um casal de seriema correndo juntos.

Quando se vê não somos mais crianças. A doce infância foi deixada pra trás.

Ai que saudades eu tenho da minha infância perdida, que os anos não trazem mais.

Que nostalgia sinto quando ia à escola. A mesma cujo uniforme verde e branco ainda é usado pelos meus dois netinhos.

Sinto saudades tantas daqueles natais perdidos anos atrás. Quando mal dormia a noite. A espera de um Papai Noel de barbas brancas, vindo de terras distantes, num trenó, acreditava eu, puxado por renas aladas.

Sinto ainda um apertume no peito quando aquela mocinha de saias rodadas, lançava olhares encantadores em minha direção. Embora estes mesmos olhos gulosos tivessem outro endereço. Um amigo e confidente, que um dia me contou que aquela mesma mocinha era sua primeira namoradinha, escondida dos pais, e como gostaria que ela fosse minha.

Saudades me cavoucam o peito, uivando ainda de desejo de voltar à mocidade, ir caminhando anos atrás, em direção àqueles sonhos desfeitos, muitos deles não se realizaram, pois se tornaram meras quimeras, frutos de mais um devaneio meu.

Confesso, sem medo de ser mal entendido em meu manifesto, que as preocupações mudam ao sabor dos anos.

Antes, menino ainda, calças curtas e ideias longas, sonhava em ganhar como presente de aniversário aquela bola de capotão, ou aqueloutra bicicletinha de rodinhas cor de rosa, ou até mesmo um patinete de rodas de rolimã, não sei se existia aquele brinquedo, ou ele fazia parte de minha fértil imaginação.

Já hoje, passados anos e anos, conto nos dedos mais de setenta, passei a ser Papai Noel dos meus netos. Embora não tenha a mesma barba nevada, caso deixasse a minha o espelho me confidenciaria que seria tal e qual o mesmo velhinho vindo de longe, dizem ser de um país chamado Lapônia, no qual ainda acredito, com a mesma fé de dantes.

Bem sei que o tempo passa. Até mesmo a uva vira passa. E passamos nós, em direção adiante, sem poder deter a velocidade do tempo.

Agora, anos passados, cãs enxovalhando as minhas têmporas, as ambições são outras.

Ainda tenho sonhos. Muitos são sonhos desfeitos.

Não me apoquento mais em ganhar dinheiro. O que percebo, ao final do mês, é mais do que suficiente para me manter vivo. Aliás, tenho saúde a emprestar aos outros. Faço apenas e tão somente o que me apraz. Aquilo que me causa dissabor esqueço. Não tenho tempo a ficar ouvindo impropérios. Sou avesso a reuniões. Discussões infrutíferas delas me afasto.

Dos falsos amigos quero distância. Aproximo-me daqueles verdadeiros. Mesmo que sejam poucos eles me satisfazem.

Não faço questão da opinião que fazem de mim. Antes me preocupava com as tais Fake News.

Pra mim tanto faz como tanto fará. O futuro é incerto. O presente conta e muito, na minha concepção abalizada. O passado dele não me desvencilho. Lembro-me de fatos pretéritos. E me esqueço do que comi no dia de ontem.

Antes, naqueles verdes anos, preocupava-me com o que seria mais tarde. Agora, que já sei não me importa o que será de mim daqui a alguns anos mais.

Importo-me sim, com o dia presente. Com a saúde e o porvir dos meus netos. Da mesma maneira me preocupa o futuro deste país de dimensões imensas.

O tempo passa. As tribulações se diversificam.

Hoje pouco me importa o que o amanhã me reserva. No entanto, o que será dos meus descendentes, diretos ou indiretos, em verdade apoquenta-me sim.

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