Hoje em dia morre-se por qualquer coisa.
De causas naturais. Entenda-se velhice.
Morre-se de acidente. Já que a violência predomina.
Deixamos de existir por causa de enfermidades. Dentre as mais prevalentes, nestes tempos de pandemia, o tal coronavirus tem sido o responsável por muitos óbitos.
Felizmente parece que a pandemia está sob controle. Graças à vacinação, aos cuidados de higiene, que foram redobrados, ao uso de máscaras, ao distanciamento social, esta doença anuncia seu adeus. Tomara ela não mude de roupa. E outro vírus apareça, outro mutante mais letal ainda, não dê as caras feias em nosso país continental.
Estamos em pleno outono. A temperatura começa a esfriar.
A azulice do céu tem predominado. Enfim a chuva se despediu. Pelo menos por aqui. Nestas bandas mais ao sul do país.
E como tem morrido gente nesta guerra que não termina nunca.
Embora se contabilizem mortes por todas as partes de nosso amado Brasil.
Por aqui morre-se por balas perdidas. Crianças não escapam das contendas entre policiais e traficantes nos morros de onde se avistam cenários paradisíacos.
Graças aos desníveis sociais estas mortes acontecem. Torna-se cada vez mais angustiante conviver-se entre a riqueza extremada e a miséria incontida.
Ricos são cada vez mais opulentos. Pobres mendigam migalhas.
Tenho, nas bandas da linda cidade de Ijaci, uma rocinha que me acompanha desde quando aqui cheguei.
Tão logo amealhei alguns trocados adquiri, contrariando a opinião de minha familia, um pedacinho de pasto sujo, uma casinha pequenina, um curral caindo aos pedaços, algumas vaquinhas sem pedigree, as quais chamava de tatu com cobra, pensando que qualquer um podia ser fazendeiro.
Só o tempo me ensinou que vaca não dá leite. De graça não sai das tetas. Tem-se de acordar cedo. Tratar bem das ruminantes. Que passam o dia inteiro mastigando. Não sei o que as vacas pensam. Só sei que elas ruminam. E carecem de capim picado. Ração que custa os olhos da cara. Silagem de milho não pode faltar. E água limpa ajuda o leite aumentar.
E quando chove em demasia? Aí a porca torce o rabo. O caminhão leiteiro não chega lá embaixo. E tem de ser rebocado à força de uma junta de bois. Pois o trator valente enguiçou. E custa caro o conserto.
Mesmo assim amo aquele pedaço de chão. Tenho o maior respeito por quem mora por ali.
Com eles aprendo muito. Que quando a égua dá cio ela pisca. Que vaca mocha tem de ser mochada em criança. Que leite só dá lucro aos olhos do dono. Que vaca de três tetas não produz como a de quatro. Que gavião come pintos. Que tucano bicudo é o terror dos ninhos dos pobres passarinhos.
Aprendi ainda que mulher na roça não tem valor. Só serve para embarrigar. Que quando nasce um bezerrinho machinho ele recebe o nome de gabiru. Seu destino, pobrezinho, pode virar linguiça.
São tantos ensinamentos que quase me esqueci.
Ah!, já ia me lembrando do causo que me contou um cumpadre, de nome Seu Mané, dono de um sitiozinho fincado pertinho de uma porteira, ao qual batizou de Paraíso.
Paraíso não sei por que. Se trata de um lugar mais feio que urubu pelado. Lugarzinho fincado num lugar ermo e esquecido. Pra onde se chega só quem se perde na estrada. Ali falta de tudo. Menos calor humano.
A mulher do Seu Mané, de nome Balbina, trata a gente como se fosse de casa.
Logo que a gente apeia ela nos convida a um cafezinho quentinho, feito inda pouco, com uma broa de milho embrulhada na palha, com sabor de quero mais.
Esturdia, ia passando por ali, no lombo do meu cavalinho cego de um dos oio, mas bom de marcha como ele só, quando apeei junto à porteira gasta pelo tempo de mau uso. Ela acabou despencando de lado assim que amarrei o cabresto no esteio carunchado.
Mesmo assim acabei chegando.
Seu Mané estava ausente. Dona Balbina não sabia onde estava o marido.
Meia hora depois ele chegou. Montado naquela motocicleta mais velha que minha avó.
Acontece, desgraça pouca é bobagem, quando ele estava para passar no mata-burro a moto entrou com a roda da frente no buraco entre as réguas quase rotas. Ele despencou. Caiu de mau jeito. Quase não se levantou.
Chegou a casa bufando de desgosto. Mesmo assim me cumprimentou apertando-me a mão.
Trocamos duas dúzias de palavras. Ofereci-lhe meus préstimos de doutor. Ele me agradeceu dizendo estar de bem a melhor.
Já era tarde quando ameacei voltar de onde vim. Por último perguntei pela saúde de um vizinho nosso. Há tempos não via o Aristeu Arisco.
Foi quando ouvi, da boca do amigo Mané da dona Balbina, isso que lhes passo adiante: “ele morreu”.
“Morreu de quê”? Retruquei eu.
“Parece que foi de morte morrida.”
Até hoje não sei do que o Aristeu morreu. Só pode ser de veice. Já que ele tinha muita saúde.