Cada um tomou seu rumo

A gente cresce, envelhece, e um dia deixa de existir.

Uns mais cedo. Outros vivem mais. Terceiros não deixam lembranças. E morrem logo ao nascimento.

A vida trata cada um a sua maneira. A maioria vive além do que se imagina.

Já poucos mal sobrevivem. São infelizes, mal nascidos, e crescem experimentando todas as agruras desta vida.

Por qual razão? Indago-me. Não deveríamos todos nós ter o mesmo destino?

A resposta não a tenho de pronto. A vida não me ensinou o motivo de tanto desencanto.

Uns nascem em berço de ouro. Outros não são aquinhoados pela sorte. Vivem por acaso. Sentindo por dentro o descaso de não ter tido a mesma fortuna.

Ainda me lembro de um amigo de infância. Tínhamos a mesma idade. Éramos vizinhos de rua. Brincávamos juntos as mesmas brincadeiras de criança. Naquela mesma rua que daqui se avista pelos fundos.

Eu tive a chance de estudar em boas escolas. Já ele, pobrezinho, não teve a mesma sorte.

Zezinho enveredou-se pelo caminho do mal. Aos cinco anos já vendia drogas numa esquina da cidade. Aos menos de dez já era considerado bandido. Foi apreendido. Numa instituição de menores infratores continuou sua sina de bandidagem.

Aprendeu, naquele lugar infestado de gente de péssima índole, tudo que é ruim.

Aos menos de vinte, durante um assalto a mão armada, levou um tiro no peito. Veio a óbito naquele exato momento. Zezinho não chegou aos trinta. Não experimentou, como eu, e tantos outros, a felicidade de um dia ver seus sonhos realizados.

Já outro amigo, mais dedicado aos estudos, graduou-se em advocacia. Amealhou uma fortuna digna de um marajá. Criou uma família linda. Teve netos. Sobrevive ainda hoje, beirando os oitenta anos.

Um terceiro colega de faculdade agora é professor na mesma universidade onde se graduou em medicina. É considerado um dos mestres de nossa especialidade.

Ainda me recordo de outros tantos. Uns ainda vivem. Outros já partiram rumo a um lugar ignorado.

Neste dia lindo, meados da semana santa, véspera de feriados, aqui estou a me lembrar do passado.

Foi naquela mesma rua onde passei a infância. De onde saí para completar os estudos. Ali deixei meus pais imersos numa bruma densa de saudades. Foi ali mesmo que colecionei boas amizades.

Já hoje, passados os setenta, tentando me recordar do pretérito, ainda me lembro dos velhos amigos.

Bem sei que cada um tomou seu rumo. Tiveram seus destinos abreviados. Ou ainda vivem felizes curtindo o caminho que escolheram.

Quando penso que a cada um dia está reservado um caminho, se tivesse de escolher por onde iria, com certeza percorreria o mesmo trajeto. Só que, um pequeno detalhe me incomoda. Não mais ter meus pais por perto.

Hoje, nesta quarta-feira, meio de semana, amanhã é feriado, me lembro de tantas coisas.

Entre elas os amigos que tive. Muitos não estão mais aqui. Cada um deles esqueceu-se que a vida não tem volta. Só se vive uma vez. Não por escolha nossa.

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