Ela optou pela liberdade

Qual a exata definição de liberdade?

Seria simplesmente o ato de ir e vir? Fazer o que lhe dá prazer?

Ou melhor dizendo? Grau de independência do cidadão, um povo ou uma nação elege como valor supremo, como ideal. Ou até mesmo um conjunto de direitos reconhecidos ao individuo, isoladamente ou em grupo, em face da autoridade politica e perante estado. Ou até mesmo o poder que tem o cidadão de exercer a sua vontade dentro dos limites que lhe faculta a lei.

Pra mim liberdade é sentir a brisa fresca da manhã. Olhar o dia que nasce sem que algo lhe tolha o desejo. Poder amar mesmo sem ser correspondido. Gostar sem ser retribuído. Viver intensamente a cada dia que nasce. Sorrir mesmo sem motivo aparente. Abraçar mesmo aquele que não corresponda ao seu gesto de carinho. E por aí me identifico com a palavra liberdade. Sentimento que se define de muitas maneiras. Cada um ao seu modo.

Conheci, de tempos idos, uma mulher cheia de encantos.

Ela era jovem quando a vi andando pelas ruas. De uma beleza que saltava aos olhos.

Cabelos pretos e longos. Olhos negros como a asa da graúna. Pernas não finas ao desvario nem grossas demasiadamente. Pelas contas que fiz, naquele dia fresco, era outono, o sol brilhava intensamente, ela deveria contar com mais ou menos trintanos.

Ainda jovem apesar da aparência envelhecida.

Tive a curiosidade de interpelá-la. Ela não se assustou ao meu gracejo.

“Como você é linda menina moça mulher. Pra onde vai? Nesta hora tao cedo”?

Ela virou-me os olhos. Neles percebi certo ar de descontentamento. Poder-se-ia dizer de tristeza misturada a uma pitadinha de angústia.

Seu nome era Madalena. Segundo ouvi de sua boca.

Ela havia se separado do marido recentemente.

A princípio, continuava elazinha, tudo eram flores entremeadas de rusgas que depois de transformaram em agressões daquele homem de começo carinhoso e sem defeitos.

No entanto, com o tempo passando, com a idade avançando, o que era bom foi pouco a pouco se transformando num inferno.

Pedro, era esse o nome do homem com quem se consorciou, por estar desempregado passou a se ausentar de casa.

Chegava ao raiar do dia com odor etílico a exalar de sua boca. Acabava de sair de um bar. Começou a jogar com uma turma de gente de péssimos antecedentes.

Um dia foi preso. Passou uma semana inteira entre grades. Naquele ambiente lúgubre tornou-se ainda pior.

Quando foi posto na rua voltou a casa embriagado. Foi a primeira vez que Madalena foi agredida. Ainda se lembra daquele dia. Uma marca na face, resultado de uma bofetada, ainda mal apagada, foi o pingo d’água inicio da separação.

Passaram-se meses. Um ano inteiro se viu ao vento.

Numa manhã de outono, quando a encontrei na rua, Madalena me contou em detalhes a sua história.

Disse-me que não suportava mais tamanha violência. Deu um basta naquela relação.

A partir daquela manhã, dia lindo, sol a reluzir entre o azul do céu, aquela linda mulher me confidenciou que resolveu optar pela liberdade. Foi uma sábia decisão.

Relações conflituosas como aquela merecem ter um ponto final. Nada como a liberdade de poder sentir-se a vontade fazer o que lhe aprouver. Foi esse o sentimento que pude ler nos olhos de Madalena. Um misto de alegria com uma vontade imensa de poder recomeçar de novo. Pois compete a nós decisão de ir a vir, chorar ou sorrir, de sentir por dentro esta  sensação maravilhosa de poder fazer o que o nosso coração dita. É preciso coragem para retroceder ou seguir em frente. Foi isso que constatei na linda mulher. Que se despediu desejando-me melhores dias. Não somente hoje como para sempre.

Nunca mais a vi. Imagino o quanto hoje ela está feliz.

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