Os tempos são outros

Como os tempos mudam ao sabor dos dias.

Meses são deixados pra trás. Anos se sucedem como o farfalhar das asas dos beija-flores.

De repente não temos mais vinte anos. A infância se perdeu na bruma do tempo. Distantes passaram os anos quando tínhamos nossos pais por perto. A vida escorre lépida por entre nossos dedos.

Agora, quando olhamos no espelho, confidente que não mente, vemos cãs, rugas passarinham-nos pela face, aquele sulco aprofunda-se no canto dos olhos, os cabelos perderam o viço, quando não deixaram, em seu lugar, aquela calva luzidia, indicio de que a idade chegou.  E os velhos anos não voltam jamais.

Ai que vontade tenho de retroceder no tempo. Se possível fora tomar uma poção mágica. Ou viajar na máquina do tempo. Ver a mocidade retornar. E, se possível fosse, voltar a ser embalado no bercinho colorido, enfeitado com penduricalhos feitos com todo carinho pela minha saudosa mãezinha.

Os tempos mudaram. O que foi feito daquela bicicletinha de rodinhas amarelas? Aquela mesma que ganhei no meu segundo aniversário. Por onde andam meus amigos da Costa Pereira? Muitos, bem sei, não fazem parte desta vida. Mudaram-se para um lugar desconhecido. Pra onde irei. Não sei quando.

Os tempos são outros. Agora não mais brincamos de bolinha de gude e finca. De rodar pião. De pular amarelinha. O jogo de bete, brincadeira de rua, desapareceu como fumaça. Muitos amigos de antão se tornaram estrelinhas a enfeitar o céu durante a noite.

Não restam dúvidas que os tempos mudaram. Nós mesmos nos transformamos sem poder dizer não.

Agora, já que nos tornamos velhos, prefiro ser chamado de idoso, com muitas prerrogativas, muitas são esquecidas ao sairmos à rua, observo que os tempos são outros. Mudanças mudaram-se. Costumes são distintos. Idosos são deixados pra trás. As suas deficiências não são respeitadas. O espaço a eles destinado na maior parte das vezes é ignorado.

Bem sei, não tento mudar as coisas, que a evolução é benéfica. Mas que me causa saudades os tempos de outrora não deixo de imaginar.

Daqueles bons tempos do bonde puxado a cavalo. Dos velhos paralelepípedos hoje sepultados pelo asfalto. Das ruas de terra batida. Do trabalhão que dava as nossas queridas mães ter de lavar nossa roupa a cada dia. Das idas à escola de merendeira às costas. Do boletim que, se não trazia notas boas éramos repreendidos. Deixados de castigo até a hora da janta.

Que saudades eu tenho das orações feitas por nossos avós. Quando desfrutávamos do prazer de tê-los ao nosso lado. Naquela mesa farta. Das guloseimas que nossa avozinha fazia. No velho fogão a lenha. Cujas chamas crepitavam nas noites frias.

 

Pena que os tempos mudaram. Será que mudamos nós?

Envelhecemos certamente.

Meu coração não se deixa enganar. Minhas doces recordações ainda estão vivas dentro de mim.

Aquela rua, que sempre me atrai, aquele cãozinho que nunca me atraiçoou, fazem parte de um passado redivivo.

Não restam dúvidas que os tempos mudaram. Confesso que eu também mudei.

Mudei de rua. De endereço. De idade. Perdi a mocidade. Agora conto com mais de setenta anos. Mas não me queixo.

Se pudesse retroceder no tempo, voltar aos verdes anos, retornar a infância perdida, tendo ao meu lado a presença sempre grata dos meus pais, confesso.

Não teria receio de voltar no tempo. De voltar ao rela do jardim depois da missa das nove. Rever aquela mesma namoradinha com quem me casei.

Ai que saudade daqueles velhos anos. Pena que eles me deixaram seguir adiante. Sem a mínima possibilidade de voltar atrás.

 

Deixe uma resposta