É preciso coragem

Acordar cedo. Tomar não se sabe quantas conduções para chegar ao trabalho.

Enfrentar os atropelos que a vida lhe oferece. Ao final do mês perceber um salário mínimo.

Criar filhos às dúzias. Muito embora tenha sido recomendado no máximo dois. Varar o mês inteiro com aquele rendimento que mal lhe permite ir ao supermercado. E, ao chegar ao caixa ter de devolver o supérfluo. Com o quilo de arroz nas alturas. Do feijão subindo à estratosfera.

Ter de pagar a conta de luz na tal bandeira vermelha. Muito embora a chuva tenha sido copiosa. E os reservatórios se encontrem no nível máximo. Pagar o aluguel, naquele barraco dependurado no alto do morro. Sob a ameaça de um dia desabar. E, quando chega ao trabalho, depois de uma noite atribulada, com as goteiras caindo sobre a cama novinha, ensopando-lhe até os ossos, descobrir que foi demitido por injusta causa, sem motivo, só porque teve de faltar um dia apenas para levar o filho mais novo ao médico, naquele dia funesto, Pedro se viu no olho da rua.

Foi quando nosso herói, homem valente, temente a Deus, aquele que nunca vai ser influenciador digital, tido como marginal, apesar de nunca ter afanado uma bala sequer, sempre vivendo ilibadamente, se viu em desespero.

Matar um leão por dia sempre fez parte da vida de nosso personagem. Coragem nunca lhe faltou. Honestidade sempre foi a sua marca. Pedro, aos trinta anos completos, naquele mês de abril, passou a olhar os anúncios de jornal, a procura de um novo emprego. As estáticas eram contrárias as suas pretensões. Em cada cem brasileiros uma cifra considerável estava de fora do mercado de trabalho. E lhe faltava formação profissional.

Pedro cursou apenas o segundo grau. Nascido numa familia pobre. Desde cedo ajudava ao pai a catar latinhas para levar ao reciclado. Era pouco. Insuficiente para que tivesse oportunidade de estudar em boas escolas.

Assim corria a vida para o pobre pai de familia.

Naquela quinta-feira, desiludido com tudo, e com todos, Pedro mais uma vez persistiu na busca de um novo emprego. Ia de negócio a negócio oferecendo préstimos.

Passaram-se dias. Meses, não se sabem quantos.

Numa manhã, um dia nublado, havia chovido na noite anterior, Pedro, esperançoso de conseguir colocação, numa fábrica de autopeças, ali chegou.

Foi informado para esperar até as nove. Era ainda menos de seis e meia.

Uma fila enorme dava voltas na pracinha. Pedro era o vigésimo terceiro.

Naquele malfadado dia dois bandidos fizeram um arrastão. Levaram tudo que os pobres infelizes traziam na algibeira. Pedro não fugiu à regra. Teve a carteira afanada. O celular, comprado à prestação, ainda no começo, foi levado sem que pudesse impedir tal ato tresloucado.

Mais um dia sem sorte para aquele homem bom. Pedro teve de voltar a casa sem boas noticias a dar a familia. Mais uma semana em busca de emprego.

Foi quando percebeu, em meio as suas preocupações costumeiras, que um dos filhos tossia e estava febril.

Teve de levá-lo ao pediatra. Chegou cedo àquela unidade de saúde ainda com as portas fechadas.

Já passava das dez da manhã quando começou a chover. E o garotinho piorava. Era caso de internação. Foi informado, contrafeito, que deveria levar a criança a outro hospital. Ali o pediatra avisou que não poderia chegar a tempo. Mais um contratempo na vida sofrida do pobre Pedro.

Sem poder pagar a lotação, não lhe restava outra opção senão seguir caminhando. Levando o filho enfermo nos braços.

Já passava do meio dia quando o menino foi atendido. O diagnóstico foi dado de pronto. Uma pneumonia comprometia o estado da criança. Com a receita mas mãos Pedro foi à farmácia. Os antibióticos prescritos, mais os demais medicamentos, custavam a bagatela de duzentos reais. Uma quantia que não possuía. Definitivamente.

Não lhe restava outra opção senão pedir emprestado a algum vizinho mais abonado. Bateu em várias portas. E nada de conseguir o empréstimo.

O garotinho piorava a olhos vestidos de lágrimas.

Pedro, valente, não valentão, tentou argumentar com o balconista que pagaria depois.

Não foi atendido nas suas admoestações educadas.

Num impulso, num átimo, levou os remédios dizendo que pagaria noutro dia. Foi impedido pelo segurança da loja. Dali saiu, em prantos, com o filhote ainda em estado crítico.

Por sorte uma alma piedosa interferiu na contenda. Acabou pagando os medicamentos. Salvando a criança de um mal pior.

Pedro chegou à casinha modesta chorando de alegria. O filho se restabeleceu.

Pedro conseguiu novo emprego. A sorte enfim iria mudar.

A cada dia acontecem casos semelhantes.

É preciso coragem para poder sobreviver.

 

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