Quando a gente nasce, num dia iluminado como esse, não sabe o que vai ser no dia seguinte.
Pode chover. O sol voltar a brilhar. Os pássaros continuam a cantar. Se a vida vai continuar. Se a saúde vai persistir. Quantos anos mais viveremos. Se por acaso a morte vier nos buscar talvez de nada adiante fecharmos as portas que ela vem.
O bom é vivermos intensamente o que o agora nos reserva. Já que o futuro é incerto. E o passado é favas contadas. Mas dele não me desvencilho.
Se a gente tivesse uma bola de cristal, ou fosse uma cigana que pudesse ler as linhas das mãos, quem sabe assim a indefinição iria se desfazer. Mas pra quê? Me pergunto. O gostoso é desconhecer o que nos reserva o futuro. Tão ou mais que um bolo de aniversário. Quando a gente assoprava velinhas, naqueles idos anos de quando éramos crianças.
Um dia percebi, numa tarde, quando voltava da minha roça, um menino, tentando entender o que lia num velho livro.
Acerquei-me dele devagarinho. Tentei ajudá-lo.
Era uma história de um rapaz, que sonhava ser médico, já que era aluno aplicado, só tirava notas boas, embora poucas oportunidades lhe acenavam ali, naquele lugar ermo, distante de tudo. Bem longe da realidade de cursar uma boa universidade.
Mesmo assim, como dizia a história, aquele rapazola, graças à dedicação e afinco, seus sonhos vieram a se concretizar.
Ele se graduou em medicina aos quase trintanos. Empenhou-se a fundo na profissão escolhida.
Desdobrava-se em plantões que varavam noite adentro. Ganhava uma miséria. Mas tudo aquilo não o demovia de seguir adiante. Obstáculos são feitos para serem vencidos. Dizia ele.
Doutor João, já médico diplomado, gostaria de fazer uma especialidade cirúrgica.
No entanto outro vestibular teria de vencer. Eram muitos candidatos para aquelas resumidas vagas num serviço de residência naquele hospital de bom conceito.
Mesmo assim o doutor não desanimou. Antes de conseguir ter acesso àquela residência teve de enfrentar mais anos em empregos numa unidade de saúde distante de onde morava.
Por sorte não era casado. Mal tinha tempo para namorar. Vivia solitário num quarto de hotel.
Um dia apareceu, naquele emprego, um rapaz que se queixava de uma dor forte no lado esquerdo do abdome. Na parte de baixo. O consultante estava febril. Pela palpação diagnosticou se tratar de uma apendicite de estrema urgência pra ser operado.
Por mais que tentasse não conseguiu vaga num pronto atendimento próximo daquela unidade de saúde. E o jovem acabou indo a óbito nos seus braços. Foi a primeira perda que experimentou. Das muitas que teria pela frente.
Continuando a história, lida pacienciosamente naquela tarde, ao menino que tentava entender o que diziam as letras, anos mais tarde, aquele não mais jovem doutor, que tinha pretensão de seguir adiante, enfim conseguiu começar a residência em neurocirurgia.
Uma especialidade difícil. Pois o cérebro humano pode ser ainda uma incógnita. Qual uma caixa preta de aviões.
Doutor João, no primeiro ano de especialidade, caiu em suas mãos um jovem acidentado. Politraumatizado grave. Os exames evidenciaram se tratar de um traumatismo craniano. Com premência de ser operado. Caso contrário iria fatalmente à óbito.
Naquela noite escura, quando de um plantão, mais uma vez o pobre médico nada pode fazer. Faltou anestesista. Era um hospital público. Carente de recursos. Como tantos distribuídos pais afora.
E mais uma vez o paciente acabou fechando os olhos. Teve morte cerebral decretada. E a familia acabou responsabilizando o pobre profissional pelo acontecimento funesto.
Um processo acabou pondo em risco a carreira do infeliz médico em inicio de carreira. Quase teve o seu diploma cassado.
Anos mais tarde, quando pensava que enfim as coisas iriam melhorar, já era tempo, doutor João, já feito especialista, abriu um consultório modesto numa cidade do interior.
Foram tempos difíceis. A crise se manifestava em cada esquina. Pacientes existiam. Mas poucos podiam pagar.
A idade acabou chegando para aquele não mais jovem doutor.
Aos quase setenta anos resolveu se aposentar.
Era uma aposentadoria ridícula. Uns caraminguados que mal lhe permitiam uma vida confortável.
Aos mais de setenta anos doutor João teve de continuar na lida. Conciliava a aposentadoria com um emprego. Num hospital de periferia. Que lhe pagava um salário mínimo.
Anos mais tarde, já envelhecido, doutor João amanheceu sentindo um formigamento do lado esquerdo. Foi diagnosticado um AVC isquêmico. Que o levou ao leito de onde nunca mais se levantou.
Ao fim da história, lida ao menino que tentava entender as letras, ele mesmo me confidenciou.
“Pena. Sonhava ser médico. Pretendia seguir esta carreira maravilhosa. Esforcei-me para ir adiante. Agora sei que não é bem assim”.
Não sei se ele desistiu do seu propósito.
Esses jovens, ah, se soubessem o que eu sei. Não desistiriam nunca. Por mais que os tropeços ocorram, por mais que as dificuldades existam, vale a pena seguir em frente.
A medicina é um caminho cheio de espinhos. Mas flores existem. E os problemas são inerentes a qualquer profissão.
A historinha não teve um final feliz.
Como tantas em nossa espinhosa profissão.