Cumequepode?

A inversão de valores que acontece em nosso estimado Brasil avilta-nos os olhos.

Idolatra-se a quem não deve.

Deixa no ostracismo quem em verdade tem valor.

São critérios pra mim desconhecidos. Fama, a conta bancária, aqueles que enfeitam a mídia, desfilam pelados na avenida, bundas de fora, artistas sem muito pedigree, coisas e loisas que me afrontam os olhos.

Conquanto aqueloutros, de reluzente valor, moram em barracos dependurados no morro, e perdem tudo depois de enchentes que têm enlutado país inteiro.

Bombeiros que salvam vidas, professores abnegados, profissionais de saúde que passam a vida inteira tentando atenuar dores, e aposentam-se, depois de anos e anos de trabalho, com uma mixórdia que mal lhes permitem um descanso merecido.

Ontem mesmo fui alertado, numa página da internet, que um certo plano de saúde, daqui mesmo da cidade, oferece consultas pela bagatela de vinte e cinco reais.

Como se fosse possível, depois de mais de onze anos de formado, desembolsando quantias maiúsculas, tendo que manter um consultório, pagar a uma secretária, isso sem contar os impostos, que nos tiram o sono, manter-se atualizados, e receber, ao final do mês, aquela soma que mal nos permite pagar uma conta de luz. Ou ainda manter os filhos na escola particular.

Por vezes me pergunto: como é que pode? Ou Cumequepode. Como se diz em linguagem da roça.

Idolatram-se, por aqui, personalidades cuja fama não se justifica.

Escritores letrados, poetas são marginalizados, donas de casa em jornada dupla de trabalho, empregadas domésticas que percebem um salário mínimo, gente obreira que acorda ao cantar do galo, de mãos ásperas e tez tostada pelo sol, moradores de rua que não tem onde morar, sofrem na pele as agruras de um país que privilegia ricos, e deixa a margem aqueles que não tem a ventura de nascer num berço douro.

Cumequepode, neste país tão rico, acontece esse desperdício de alimentos, que são jogados ao lixo, e tanta gente passa fome, miseráveis mendigam migalhas, mãos estendidas em busca de esmolas, a porta de bancos e restaurantes grã-finos?

Como é que pode, em linguagem mais escorreita, a saúde estar cada vez mais capenga, filas enormes se formam à porta de entidades médicas, gente sofrida espera a hora de ser operada, já que as tais cirurgias eletivas são de quase impossível acesso, e quando se consegue a doença já levou ao óbito, a apendicite supurou, a hérnia já estrangulou, a próstata já não tem mais cura.

Cumequepode endeusar-se um jogador de futebol, que ganha uma fortuna, e trabalha pouco, enquanto aquele pai de familia, que acorda cedo, toma não sei quantas conduções para chegar ao trabalho, e quando vai ao supermercado, com o que restou do salário,  tem de deixar no balcão não se sabe quantos gêneros de primeira necessidade, e ao chegar ao barraco, com o aluguel atrasado, tem de dizer aos filhos que mais uma vez têm de esperar o mês que vem aquele iogurte gostoso, para levar a escola, pensando na merenda que mais uma vez não foi dada naquele dia de aula.

Cumequepode. Mais uma vez indago, políticos corruptos são eleitos com o aval de gente que não sabe votar, e troca  o voto por um saco de cimento, uma cesta básica, com produtos vencidos, e, quanto vai cobrar o voto não encontra a devida resposta aos seus anseios de brasileiros desiludidos por  uma classe que só pensa em si  mesmo.

Como é que pode? Por último pergunto.

Se puderem me dar a resposta espero.

Que esta uma indagação tenha eco. Cumequepode? Quem não pode se sacode.

É o que tenho feito. Vida afora.

 

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