“Eu num falei?”

Quantas e quantas vezes a gente disse, se contradisse, caiu em descrédito, e foi tido como espalhador de inverdades.

Hoje se diz, com muita propriedade: Fake News.

A gente fala e não nos dão ouvidos. Pessoas ficam de ouvidos tapados aos nossos conselhos.

Alinda me lembro, de volta ao passado, quando minha querida mãe dizia: “Paulinho. Seja um aluno aplicado. Preste atenção ao que diz o professor. Assente-se à primeira carteira da sala da aula. E vai ver que notas boas vai conseguir”.

E euzinho seguia-lhe as recomendações. E a cada mês ficava no quadro de honra. Não fazia feio as suas recriminações com a intenção de me guiar pelo caminho do bem.

Nem sempre assim acontece.

Anos mais tarde aquele garotinho cresceu. Tornou-se um esculápio especialista em vias urinárias. Médico cirurgião que trata das enfermidades dos rins, dos caminhos fininhos que levam a urina até a bexiga, até sendo despejada ao exterior pela uretra, passando pela próstata, sem que nenhum atropelo se insira pelo caminho.

Além disso tudo o urologista é capaz de diagnosticar as patologias da bolsa escrotal. Onde estão alojados os testículos. Que podem estar ausentes ao nascimento. Uma patologia que deve alertar os pediatras. Que devem encaminhar os menininhos ao colega de farda.

As inadequações sexuais ainda são de competência da Urologia. Bem como as doenças de cunho sexual.

Não confundam as doenças ano retais com a urologia. Elas são tratadas por outra especialidade. São da alçada de um colega chamado de proctologista.

Um dia, era tarde, já quase ao fechar os olhos de uma sexta-feira, estava sem secretária, preparando-me para deixar o consultório, quando ouvi um tossir do lado de fora da sala.

Encaminhei-me pra onde partia a tossezinha.

Ali estava um senhor. Simpático e cortês. Que se desculpou dizendo que infelizmente não havia marcado a consulta por morar numa cidade perto de onde morava eu.

Não tive como não atender àquela consulta de última hora. Ele vinha de longe, segundo me afiançou.

Seu nome era Pedro. Não me lembro do sobre.

Ele assentou-se à cadeira defronte a minha. Pediu licença para acender um cigarrinho de palha. Deixei que ele pitasse do lado fora da sala.

Passados quase dez minutinhos.

Seu Pedro voltou à consulta.

Abri a janela para deixar aquele cheiro de cigarro sair janela afora.

Foi quando ele começou a desfilar o rosário de queixumes.

“Tenho uma fazendola pertinho da cidade de Ijaci. Vivo da renda do leite. Não tenho descanso nem companhia. Enviuvei faz tempo.  Desde então não tenho com quem passar a noite. O sexo me faz bem. Me ajuda a relaxar. Um dia, já faz um mês inteiro, passou pela minha morada uma mocinha de encher os olhos. Era um petisco. Um capim novinho. Melhor que um pastinho de braquiária que um dia brotou depois da chuvinha de trasanteontem. Com ela me amasiei. Só que um pequeno detalhe tem me incomodado. Não tenho tido ereção suficiente para persistir na relação. Na última vez que tentei ficou na tentativa inglória. Não é que brochei”?

Depois de um exame minucioso, de investigar seu corpo por inteiro, de pedir os exames pertinentes, cheguei à conclusão de que sua falta de ereção se devia tão somente ao cigarro. Hábito que se não faz o monge o faz fracassar na relação.

Seu Pedro daqui saiu agradecendo-me penhoradamente a paciência. E com uma receita a ser aviada na farmácia.

Meses depois ele voltou à consulta. Não sem antes ter agendado a próxima vez.

Com um sorrisão a inundar-lhe a face ele me agradeu a recomendação. Ele parou de fumar. Não só melhorou na cama como também na faina diária.

A saída do meu consultório, depois de um abraço afetuoso, foram estas as minhas derradeiras palavras: “ eu não disse”?

Fica o dito pelo não dito. Digo e repito. O fumo é prejudicial a tudo. Melhor chupar um pirulito a pitar esta droga de cigarro.  Depois não digam que eu não falei.

 

 

 

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