Estamos no primeiro dia de abril.
Mês novo. Chuvoso. Céu cinzento. E tudo indica que a chuva vai continuar dias afora.
Em muitos países este dia é tido como dia da mentira. Também chamado de dia das petas, dos tolos, da gafe, dos bobos, apregoando partidas e espalhando boatos, inverdades, como forma de assinalar a data. O porquê desta celebração muitos ignoram. Dizem ter sido lançado em primeiro de abril de um mil oitocentos e vinte e oito. Com a noticia do falecimento de Dom Pedro; desmentida no dia seguinte.
O fato é a data alastrou-se mundo afora. Como sendo permitido acreditar em qualquer coisa.
A mentira, a partir de então, não deve ser considerada pecadilho maior. Pois a gente mente desde quando nasce. Chorando sem motivo aparente. Por uma dor de dente que nem dente tem.
Depois se mente deslavadamente. Como se mentir fosse tão conveniente para apagar equívocos de gente inconsequente.
A seguir, com o passar dos anos, passa-se a mentir paulatinamente. A mentira é tolerada. Desde que não cause percalços maiores.
A principio mentia-se sem medir as consequências. Ao ser pilhado em um pecadilho menor, dizia, aos meus saudosos pais, que aquela nota baixa era devido a tal matéria que não me atraía.
Mas me contradizia por ela ser justamente o português. Por serem as letras as minhas preferidas. Aos números sempre tive aversão.
Nunca deixei de acreditar na verdade.
Cria, na tenra idade, que a vida seria melhor se todo mundo não faltasse com a verdade.
Pouco a pouco entendi que a maior parte das mentiras eram ditas sem a menor leviandade.
Eram frutos tão somente de nossa mania de espalhar boatos. Depois conhecidos como Fake News. Que se alastraram como fogo em relva seca.
A partir de certa idade as mentiras passaram a fazer parte da minha vida. Eram mentirinhas miúdas. Que não faziam mal a ninguém.
Passei a acreditar que todas as pessoas teriam o direito de errar. A primeira vez as perdoava. Na segunda evitava aquela pessoinha palradeira. Que se julgava no direito de enganar os outros. No entanto ela enganava a si mesma.
As mentiras espalhadas aos quatro ventos eram assopradas pra longe. Era um tal de leva e traz que nada me acrescentava.
Ao revés. O fato retrato era que tudo que é dito com más intenções volta como um bumerangue atirado sem muita prática.
Acreditava, de começo, que todos seriam iguais perante a lei. Só depois daquele livro escrito dentro das celas (O Mundo das Sombras) , passei a acreditar que nem sempre é assim. Ensinaram-me que ali dentro, naquele lugar lúgubre, moram apenas os três ps. Preto, pobre e prostituta.
Cria, nos primórdios da medicina, quando aqui aportei, que todo mundo teria direito à saúde. Mais um ledo engano meu. O sistema privilegia os mais bem aquinhoados. Aqueles com plano de saúde são atendidos em prioridade.
Acreditava, ainda, dentro da minha descrença, que os idosos deveriam ter privilégios. Ao ver uma velinha de pé, num ônibus lotado, a minha descrença aumentou.
Cria ainda que as mulheres deveriam ser respeitadas. Ao constatar as desavenças entre machos e fêmeas, que podem levar a consequências funestas, a minha descrença se tornou ainda maior.
Ainda acredito na humanidade. Apesar da desumanidade que campeia nos campos de guerra.
Já hoje, ao ver tanta barbárie, tanta violência nas grandes cidades, nas mortes que se sucedem, nas brigas de torcidas, no crime dito organizado, não sei mais se acredito.
Daí tenho por mim uma sonora verdade.
Tudo não passa de uma grande mentira. Melhor seria como nos velhos tempos. Quando era repreendido por meus queridos pais, era posto de castigo, e, só dali saía depois de prometer não incorrer nos velhos senões.
Se disser que ainda acredito não levem a sério esta mentirinha deslavada. Ela não passa de uma Fake News. Um boatinho qualquer. Uma peta inconsequente.
Pena que gostaria de acreditar que tudo vai melhorar. Será?