Cansei de sonhar

A partir de certa idade, perdida a mocidade, fatos estranhos acontecem com a gente.

A mente começa a claudicar. A visão embaça. As pernas tropeçam. As doenças nos fazem lembrar quando éramos saudáveis. Fatos inerentes ao passado são mais recordados. A conta dos medicamentos fica cada vez mais impossível de saldar. Bem vinda aposentadoria! Como se ela fosse o suficiente para desfrutarmos da velhice apenas com aqueles caraminguados depositados na nossa conta ao final do mês.

Aí, neste ponto da encruzilhada, se vamos a farmácia comprar medicamentos, e o balconista nos empurra aquele remedinho azulado, retornamos a casa satisfeitos. Pena que nos esquecemos de para que serve aquilo. Aposentado faz tempo. Uma peça em desuso. Com mal serventia para urinar.

A velhice é um fato inconteste. Não é como andar de bicicleta que a gente nunca esquece. Ficar velho não é padecer no paraíso. Ao contrário. Ficar velho é como um sapato que fura na sola. E é jogado fora. Sem jeito ou possibilidade de remediar.

O velho dorme pouco. Acorda em sobressalto ao descobrir um laguinho feito no lençol da cama. Com odor de urina vencida. Melhor usar fraldão a partir de então.

Dizem que quando o velho sonha é chamado de pesadelo. Pois o passado é lembrado numa distância infinita. E o futuro por sorte é ignorado.

Tenho um amigo do peito, gente que já viveu bem mais do que eu, nomeado de Pedro não sei qual o verdadeiro, já que ele mesmo não se lembra de quando nasceu, que vive pertinho de onde tenho uma rocinha.

O velho Pedro já trabalhou mais que precisava. Hoje, depois de incontáveis anos de trabalho, recebe uma aposentadoria mixuruca. Trocando em miúdos mal atravessa metade do mês. O resto das contas fica pro mês seguinte. Se der paga. Caso contrário fica no pendura.

Mesmo assim o velho amigo nunca perde o bom humor. O sorriso fácil brota-lhe dos lábios ressequidos pelo sol escaldante da roça.

Um dia, era sábado de tarde, com ele me cruzei. Foi pertinho da porteira de sua casinha tosca.

Fiz questão de parar um cadiquinho. Estacionei a caminhonetinha ao lado de seu assento. Uma laje de pedra dura que ele mesmo esculpiu há anos atrás.

Perguntei ao velho Pedro como iam as modas. Se ainda gozava de boa saúde. Se ainda trabalhava.

Foi quando ele me respondeu: “quer mesmo saber? Olha bem pra mim. Ainda tenho de fazer bicos. Se vou à cidade, ao supermercado, tenho de deixar a conta na caderneta. Por vezes a mocinha do caixa me olha de rabo de olho. Assustada, sem saber o que é aquilo. Volto pra casa a pé. Não tem condução para chegar até aqui. Trago algumas sacolas dependuradas na dobra do braço. Chego arfando de cansaço. E ainda tenho de fazer a janta. Pois minha esposa agora mora entre os anjos. A aposentadoria mal dá para varar metade do mês. A outra espero o outro mês chegar. Vivo nos descontos. Espero a hora de partir ao outro lado. Espero que seja melhor do que aqui. Às seis e meia me recolho ao leito. Acordo ao cantar do galo. Quando aparece alguma cerca por fazer sou convocado. É o que me sustenta. Não sonho mais. Tenho medo de não acordar novamente. A última vez que sonhei foi com uma alma penada. E ela queria me levar algemado a contar estrelas. Assustei-me com aquilo. Daí o meu temor da noite. Ainda amo a vida. Muito embora meu presente seja pesado. E o meu passado foi recheado de sonhos coloridos. Agora não sonho mais”.

E não é que o velho amigo está recheado de razão? Seriam os sonhos feitos apenas para gente jovem?

Quando a gente chega à certa idade os sonhos seriam em vão?

Gostaria que não fosse assim. Pena que meu desejo ficou esquecido naqueles bons tempos que infelizmente não voltam mais.

Confesso: eu também já me cansei de sonhar.

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