De vez em quando penso nele

Hoje amanheceu um dia meio nevoento.

Mais tarde o sol brilha forte.

Mal se vê o azul do céu. Um friozinho maroto indica o inicio do inverno.

Parece que as chuvas se despediram. Posso estar enganado.

Estamos em pleno outono. Avizinha-se o inverno. E eu me encontro no outono inverno da minha existência.

Se a gente pudesse identificar em qual estação do ano estaríamos. Em qual delas nos posicionaríamos. Com certeza diria: o outono me satisfaz. Não o verão. Muito menos a primavera. O inverno da mesma maneira não me apraz. Só o outono me leva a pensar na idade. Já que a mocidade se foi. E não volta jamais.

Agora, antes da sete da manhã, o sol entra timidamente em minha sala. Logo serei obrigado a cerrar as persianas. Para que o clarume do dia não prejudique a minha visão. E não impeça que mais um texto saia da minha inspiração costumeira.

Lembranças fugidias sempre fizeram parte da minha vida. Meus saudosos pais não escapam à regra. Parentes que se foram fazem parte desta listagem.

Amigos, gente que conheci, colegas de profissão, da mesma forma deixaram marcas indeléveis nas minhas recordações. São tantos que até perdia a conta.

Este amigo, do qual me lembrei no dia de hoje, não faz parte da linhagem dos humanos.

Ele está junto comigo desde filhotinho. Um cãozinho adorável. Que foi criado ouvindo o mugido das vacas e o trinado alegre dos canarinhos da terra.

Fui eu quem o batizei. Na academia onde malho todas as tarde tenho um amigo chegado. Ele foi apelidado de Del Rey. O motivo não nos salta aos olhos. À primeira vista.

Del Rey é conhecido como aquele carro antigo. Da marca Ford. Que ostentava linhas sóbrias. Bebia muito. E hoje quase não existe mais.

Del Rey cão agora vive trancafiado num canil feito com todo carinho pertinho da minha casa da roça. Já tentei conseguir companhias para ele. Não tive sucesso na empreitada. Todas as cadelinhas não se sentiram a vontade junto dele. A última agora acabou viralatando pelas ruas de Ijaci.

Del Rey, de vez em quando, quando por ali apareço, tenho o cuidado de observar a sua pelagem escura. Os cães, da raça pastor alemão, são presas fáceis para bernes e outros parasitas.

A última delas tive de trazê-lo à cidade. Ele acabou internado numa clinica veterinária para se ver livres das tais larvas que se imiscuem pele adentro.

Já tentei de tudo para livrá-lo dos bernes que se alojam dentro de seu corpo agora envelhecido.

Na derradeira vez quase consegui meu intento.

De vez em sempre indago ao amigo Binho como está meu outro amigo de pelagem escura. Rogo para que o deixe solto. Temeroso que ele fuja dos meus domínios.

Existem amigos de todos os jeitos. Aqueles confiáveis. Nos quais se pode virar as costas sem medo de nos equivocarmos. Outros que nunca irão nos atraiçoar.

Del Rey, e outros cães que possuí, fazem parte desta legião de verdadeiros e confiáveis amigos.

De vez em sempre penso nele. Não vejo a hora de o sábado chegar.

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