O casarão da Nhá Chica

Ontem foi a primeira vez que consegui adormecer mais tarde.

A razão foi o começo da novela Pantanal. Não pelo costume de assistir a novelas. E sim pelo singelo fato daquele cenário magnifico, campo aberto, boiadas sendo levadas em comitivas, e pelo mundo rurícola que admiro tanto.

Nas bandas da minha rocinha tem gente de todo tipo. São típicos tipos da boa gente brasileira, uns miorzinhos que os outros, os demais tento ignorar.

Ali moram, bem antes do que eu, o tal Tiãozinho do Aristeu, o Zé Antonho, contador de causos, gente boa que nem eu, o Zé Peleja, ruim de negócio, que hoje enricou e vive simplesmente, dono mais de dez tratores, fora os carrões da moda, o cumpadre Betão, sócio do meu pedaço de chão, que felizmente arrendou as minhas terras, agora minhas vacas mudaram de dono, o arreliento Nicanor, ao qual perguntei, numa tarde infeliz, se por acaso gostaria de trocar de mulher, e ele quase topou, e que manta eu iria levar, catira ruim, outros que por acaso tenha esquecido, mas moram no meu coração desde quando ali finquei os pés.

Por aquela gente boa nutro o maior apreço e respeito. Ah!, já ia me esquecendo, imperdoável, do Geraldo da dona Nega. Foi ele quem me ensinou que vaca não dá leite. Tem de tirar. E fica caro encher o balde. Vaca come pra chuchu. Dela nada se perde. Tudo se transforma.

Os chifres hoje são obsoletos. Mudaram-se pra cidade. E enfeitam a cabeça daquele que não dá valor a sua mulher. O estrume vira esterco. A carne, uma vez a vaca morta, está na hora da morte. O couro tem seu valor. Tem muitas serventias. E vaca parida se esconde na matinha para tentar amoitar a cria.

Esturdia, já era sábado, quase morto, como estava sozinho na minha rocinha hoje bastante mudada, resolvi arriar o potrinho Theo.

Com ele parti rumo às Contendas. Um lugarzinho simpático, nas bandas da bela Ijaci.

Não foi preciso me acompanhar de ninguém. Fomos em comitiva com a gente mesmo.

Varamos sarandis. Abrimos porteiras. Pulamos valos. Atravessamos fazendas de café.

Cavalgamos por muitas léguas.

Até chegar a uma localidade desconhecida.

Já se fazia tarde. Meu relógio apontava quase cinco. O céu ameaçava escurecer.

Foi quando avistei um casarão perdido na fumaça.

Era uma velha casa. Pelo jeito abandonada fazia tempo.

Deixei o potrinho Theo comodamente amarrado num pau de cerca. Desafrochei-lhe a barrigueira. Retirei-lhe o bridão de sua boca. Ele me agradeceu com um sonoro relincho.

Bati à porta azulada daquele casarão carcomido pelo tempo. Ninguém respondeu lá de dentro.

Parecia que a casa estava vazia. Desabitada fazia anos.

Quando me preparava para voltar uma vozinha esganiçada me convidou a entrar.

Adentrei. Um nheco nheco foi ouvido a quilômetros de distância. Quase a enorme porta ruiu a minha entrada.

Esperei um cadinho. Numa antessala enorme. O assoalho, quase furado, roto na maior parte, antes feito em madeira nobre, carecia ser trocado em breve. A casa estava quase em ruinas.

Depois de alguns minutos de espera, que para mim pareceram uma eternidade, dei de olhos numa senhorinha alquebrada pela idade. Ela se apresentou como dona Chica.

Segundo a mesma me confidenciou ela vivia entregue ao passado. Não tinha esposo nem mesmo filhos. Como ela se sentiria bem na presença de alguns netinhos.

A simpática Nhá Chica, como ela apreciava ser chamada, era uma mulher valente. Já enfrentou procelas e tempestades. Já foi rica o suficiente para criar uma familia enorme.

Mas quis o destino, infindável mistério da vida, que Nhá Chica chegasse aos mais de oitenta com a saúde em dia.

Nunca careceu de quem cuidasse daquele casarão enorme. Mais de dez quartos, na parte de cima, dois cômodos de banho, descendo pela escada uma sala de jantar, mais dois banheiros, e, onde eu estava, naquela átrio espaçoso, apenas eu e ela nos apresentamos.

Disse que estava de passagem. Amava cavalgar. Conhecer pessoas era do meu feitio.

Não foi preciso declinar a ela o meu currículo. Ela dispensou maiores apresentações.

Lá fora o meu potrinho Theo relinchava impaciente.

Foi preciso aquietá-lo esfregando-lhe o focinho.

Nhá Chica levou-me a conhecer, em detalhes, o velho casarão.  Mostrou-me velhas fotografias de quando era jovem. Olhos claros, cabelos doirados, pele mimosa como pétala de rosa.

Já era quase noite, depois de um cafezinho acompanhado de broa de milho, um queijo fresquinho que ainda dessorava, foi nosso acompanhento naquela prosa amistosa.

Antes da partida ainda olhei, admirado, aquele velho casarão. Já era noite escura.

No dia seguinte, quando de volta pra cidade, tive a curiosidade de perguntar quem seria aquela simpática velhinha.

Foi o velho Zé Antonho quem dirimiu a minha dúvida.

Ela de fato existiu. Mas já foi levada faz tempo a morar no céu.

Nunca mais passei por aquelas bandas. Se alguém me perguntar se tudo isso é verdade, juro não ter sido mais uma invencionice minha. Perguntem ao potrinho Theo. Ele, por certo, vai piscar os olhinhos e dizer que sim.

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