Como é bom acordar cedo, abrir a janela, deixar entrar aquele vento fresco de outono, observar como o dia vai se comportar, se a chuva vai cair, se as nuvens de que cor são, cinzas, branquinhas como algodão, se por acaso vai ser um dia ensolarado, céu azul, e deixar a casa antes das seis, cedo ainda, não para o padeiro madrugão, ou aqueloutro trabalhador recém-saído da cama, que parte em direção à construção, recomeçar a semana nesta segunda-feira, quase findo março, pensando no que vai acontecer durante a semana, prestes a iniciar.
Tenho por mim, nas minhas concepções mais íntimas, que as manhãs devem ser da mesma maneira que tem sido durante a minha vida, nestes mais de setenta anos vividos.
Sempre acordei nas horas mais tempranas. Tenho comigo este hábito desde quando passei de certa idade. Não tenho pelas noites escuras em bom conceito. Pelas madrugadas ocorre o revés.
Amo o clarume do dia. Tenho pela azulice do céu infinita adoração.
Não desdenho da chuva. Desde que ela não passe dos limites. Não provoque enchentes nem tragédias como aconteceu num passado recente.
Amo as manhãs frescas como esta que me acordou neste vinte e oito de março. Mas tarde deve esquentar. Não tanto quanto no verão que se despediu.
A melhor hora para que a inspiração brote dentro de mim é exatamente bem cedo. Quando o prédio onde trabalho se mostra vazio. As quatro salas, contando com a minha, só ela está de portas abertas.
A cada dia um recomeço. A cada manhã um novo dia mostra o sorriso do sol, a cinzentice das nuvens, a temperatura ainda amena, de fato um novo dia enseja mais uma semana que por certo vai ser mais uma antes que me despeça desta vida maravilhosa que tenho levado. Afinal é um amontoado de anos empilhados como sacos de café deixados no armazém a espera de preços melhores.
Tenho assim procedido desde aquele distante ano de um mil novecentos e quarenta e nove. Antes ainda criança, não tinha os pensamentos que me ocorrem nos dias de hoje.
Ainda pensava apenas em folguedos. Em crescer, depois estudar, deixar o lar onde nasci, enveredar-me por uma profissão qualquer, constituir familia, ter filhos, depois ser presenteado com netinhos. São eles o combustível que me faz mover os sonhos. Quem sabe ainda vou poder vê-los formados. Feitos profissionais exemplares. A exemplo de como meu saudoso pai o foi.
A cada manhã renasce um novo dia. Que ele seja abençoado. Recheado de momentos bons. Se não que possamos ter forças para suportar as adversidades. Que a saúde não nos abandone.
Que a idade não seja um empecilho para sermos felizes. Penso no amanhã. Sem deixar de me lembrar do que passou. Vivo o presente. Sem contudo me olvidar do passado.
A cada dia um recomeço. A cada manhã uma razão a mais para viver em intensidade plena.
Não acordo sem antes sonhar. O que será do amanhã? O que vai ser de um novo dia?
Não importa. O que conta são os anos que passei. Aqueles que ainda passarei.
A cada manhã de um novo dia a esperança de um renascimento. Do sol que inda não nasceu. Da lua que já se escondeu. Das nuvens que de pouco empanam o brilho do sol.
Ainda bem que não sei, quanto tempo ainda me espera. Prefiro permanecer nesta dúvida cruel.
O que importa é observar sempre o renascer de um novo dia. Como este que ora se inicia. E vai terminar no ocaso. De uma noite ao cair da tarde. Quando a escuridão deita sobre o sol seu manto escuro.
Hoje, nesta manhã de outono, o céu se mostra acinzentado.
Renasce sempre comigo a esperança em dias melhores.