Aquela estranha sensação de envelhecer

De vez em sempre me assaltam uns pensamentos.

A partir de quando se sentir velho?

Qual a idade limítrofe entre a juventude e a decrepitude?

Existe em verdade alguma informação confiável de quando a gente fica idoso?

A ONU diz: velho é a partir dos sessenta anos de idade. Isso para os países em desenvolvimento. E sessenta e cinco para os países desenvolvidos.

Partindo de tal premissa, aqui, no Brasil, dito em desenvolvimento, já estou passado da idade.

Já que minha certidão de nascimento acusa- nascido em sete de dezembro de um mil novecentos e quarenta e nove. No dia de hoje não sonego idade. Faço, em dezembro que se avizinha, precisamente setenta e três aninhos.

Não mais assopro velinhas. Corro o risco de incendiar a sala pois o fogo aceso pode emitir labaredas tão fortes que podem não só iluminar o ambiente como ainda fazer as cortinas um estopim dando inicio a um incêndio de consequências imprevisíveis.

São conceitos de velho: idoso, sênior, provecto, velhusco, gasto, acabado, batido, puído, surrado, usado, ancestral, anoso, antigo, antiquado.

Conquanto seus opostos são chamados: jovem, moço, conservado, novo, recente, atual, contemporâneo, corrente, hodierno, moderno, novato.

São muitas as diferenças entre velho e jovem. Uma questão apenas de idade. E de quantidade de anos que os separam.

Antes se vivia menos. Hoje a expectativa de viver alonga-se cada vez mais.

Meu saudoso pai nos deixou aos setenta e sete. Minha querida mãezinha foi de encontro a ele aos oitenta e três.

De vez em quando dúvidas me assaltam.

Já estarei gasto como um sapato velho? Ou ainda sou apto a dar meia sola?

Poderia me repaginar, esticar um cadinho aqui, outro ali, eliminar as cãs que me enxovalham as têmporas? Valeria a pena retornar à mocidade. Enganar a mim mesmo dizendo: “por favor. Não me chamem de velho caduco. Prefiro ser chamado de tiozão gostoso.”

Ser velho não é padecer no paraíso. Ser um velho sadio sim. Mas, quando as enfermidades nos abocanham, quando as inoportunas doenças tentam nos jogar na cama, quando a senilitude não nos permite identificar entre uma andorinha e um reles pardal, aí sim. Considero a velhice um mal sem cura. Que só a morte pode atenuar.

Em absoluto não me sinto velho. Senil, nem pensar. Decrépito, me perdoem as palavras de baixo calão: “vão pra puta que os pariu”.

Em verdade velho dorme pouco. Tem prerrogativas que o permitem não entrar em filas. Deveriam ter vagas a eles destinadas no centro das cidades. Mas nem sempre é isso que acontece.

De vez em quando um gaiato ocupa aquelas vagas especiais. Os assentos destinados aos idosos estão ocupados por jovens desocupados. Velhinhas capengas são vistas em pé.

Em verdade não sofremos assédio. Quem vai se atrever a passar a mão num traseiro já caído em anos? Quem teria coragem de convidar uma velhinha para passar a noite sem dormir, num leito macio de um motel? Decerto alguém vai se atrever a afanar aquela bolsa dependurada no braço, descuidadamente. Ou roubar os seus pertences.

Velho em verdade sofre à mercê de sua aposentadoria irrisória.  Por vezes tem de se desdobrar catando latinhas. Fazendo parte de um contingente ainda portentoso de velhos sustentando filhos e netos. Quando deveriam descansar da lida.

Ser velho tem suas vantagens. Cuidar dos netinhos talvez seja a maior delas. Dormir com a avó é indicativo de ser idoso. Preparar-se para o exame de próstata talvez não seja tão angustiante. Olhe para o dedo do especialista. Respire fundo. E depois não diga que apreciou.

Ouvir menos é uma vantagem. Falam tantas besteiras que parece sacanagem. Ouvidos moucos não escutam. Melhor ficar em silêncio a escutar baboseiras. Fingir-se de cegos pode angariar simpatia. Poder admirar aquela mocinha linda, de traseiro arrebitado, pode inclusive passar a mão e pedir perdão. Sem o perigo de levar uma bofetada.

Ser velho, pra mim, que já passei da idade, hoje vivo nos descontos, no intervalo do primeiro tempo para o que der e vier, não significa que a vida vai ter fim.

Estou apenas no começo. De um jogo que ainda nem começou. E não vou esperar o apito do juiz para me despedir do campo verde da minha roça. Ainda sonho. Nunca vou deixar de sonhar.

No dia em que isso acontecer, aí sim. Podem dizer que a velhice chegou. Mas ela não vai me intimidar.

Aquela estranha sensação de envelhecer ainda não se apoderou do meu eu.

 

Deixe uma resposta