Mudar pra quê?

De vez em quando, nem sempre, penso mudar a rotina que me acompanha há muitos anos vividos.

Dormir pouco. Acordar a mesma hora. Lavar o rosto sonolento. Escovar os dentes. Ir à cozinha do meu apartamento. Tomar aquela mistura de banana picada, misturada ao leite frio, adicionar àquela mistura um produto com sabor de limão, dizem que é puro carboidrato, chamado de Maltodextrina, vestir a mesma roupa dependurada no cabide e me encaminhar ao consultório, prédio semi vazio, a espera do primeiro paciente do dia.

Isso tem se repetido desde quando criei mais idade. Antes não era bem assim.

Naqueles tempos de menos idade a diferença era pouca. Levantava quase a mesma hora. Ao invés de chegar aqui, onde estou, neste dia lindo de outono, a rotina era outra.

Chegava direto ao hospital. Passava a manhã inteira na sala de cirurgia. Operava os pacientes agendados previamente. E antes que a manhã fechasse os olhos voltava a casa na intenção de almoçar. Depois de um breve cochilo retornava ao consultório. Não sem antes atender num posto de saúde bem perto de onde estou.

Hoje, aposentado, em parte, só me resta voltar à rotina. Antes das três da tarde, quando não tenho agendado nenhum paciente, retorno ao apartamento. Mudo de indumentária. Ligo meu foninho de ouvido. Deixo a roupa de trabalho dependurada no mesmo cabide. E volto às ruas em direção ao clube costumeiro. Exercito-me na academia. Nado quando a temperatura permite. E, de volta a minha morada, tomo uma ducha morna.

Se por acaso alguém me perguntar se pretendo mudar a rotina respondo que não. Pra quê? Se isso me tem feito bem. Agora que a idade já me cavalga às costas por que mudar. Cavalo velho não muda a marcha. Não tenho tempo nem disposição de alterar a minha rotina. Embora digam que a vida seria insuportável não fossem as mudanças.

Tenho um amigo, pessoinha descomplicada, simpaticíssima ao extremo, de nome Zé, não sei qual o seu sobrenome, que pensa da mesma maneira.

Ele já dobrou a serra faz um tempão. Considera-se na descida. Já subiu o tal morrão da vida. Ainda não se acha em final de carreira. Tem muito gás para cozinhar. Embora o preço do tal não seja tão convidativo ele faz de conta que o é.

O amigo Zé, naquela manhã de sábado, quando voltava da padaria, bem cedo, pão quentinho recém saído do forno, prestes a  ir à roça, com ele me deparei.

Zé, naquele bom humor costumeiro, nunca o vi emburrado, interpelou-me por um minuto apenas.

“Doutor. É verdade que o tal exame de próstata deve ser feito a partir dos quarenta anos? E ele dói? Não tem perigo de apreciar? Não tem um exame melhor pro senhor me indicar? Já passei da idade. Não sinto nadinha de nada. Não tem como evitar o tal exame invasivo? Posso fazer pelo sangue”?

Naquele momento pensei em responder: “amigo Zé. Segue a rotina. O tal exame não tira pedaço. Não dói nem causa dependência. Dura um minutinho só. Se for preciso o exame de sangue a gente pede. Primeiro o toque. Se for preciso você volta. Ou pede a segunda ou terceira opinião”.

Não sei se o amigo Zé apreciou a minha sugestão.

O fato é que nunca mais o vi. Depois daquela manhã de sábado ensolarado a minha rotina continua a mesma. Depois do toque não tem outro retoque. Mudar, pra quê?

Se está dando certo porque mudar?

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