Agora me dou por satisfeito

O grau de satisfação varia de acordo com a nossa fase de vida.

Em menino ficava todo alegre quando, na escola, tirava notas acima da média.

Mais tarde, com o passarinhar da idade, contentava-me em não ser o primeiro. Bastava-me sobressair na altura. Pois sempre fui baixinho, nunca passei de um metro e setenta. Creio que com a idade acabei encolhendo um cadinho.

Uma vez jovenzinho, antes da adolescência, não considero tal idade em absoluto aborrecência, pois naquela idade nova quase todos pensam em envelhecer, ledo equívoco, pois considero a infância a melhor parte da vida, me bastava um dia mudar de cidade. Pois já sonhava em fazer faculdade. Esse fato realmente aconteceu.

Quando passei dos vinte anos pensava que tudo aquilo que sonhava iria se concretizar. De fato, foi assim que transcorreu. Passei no primeiro vestibular. Foram seis anos de estudar continuado. Ao final daqueles anos doirados tornei-me um esculápio pronto a exercer a medicina. Foi aí que a vida me lembrou de que nem tudo que reluz é dourado.

Precisava esticar os estudos por mais alguns anos. Tive mais uma vez de postergar os sonhos. Mais três anos me esperavam para enfim me tornar um especialista.

Passei um ano inteiro em terras desconhecidas. Descobri que deveria me aperfeiçoar noutro idioma. O portunhol não era suficiente para me fazer entender na Espanha. Aprofundei-me no estudo de outras línguas. Reiniciei o estudo do alemão. No inglês já era suficientemente preparado. O francês, por causa de uma professorinha oriunda da bela Paris, foi nesta época a linguagem que me seduzia.

Já quase me sentia satisfeito com as conquistas vencidas até então.

Foi quando retornei ao meu amado país. Trazendo na bagagem além de uma barba a me encobrir parte do rosto um cabelo que infelizmente caiu em desgraça.

Neste ponto do meu viver outras prioridades me faziam sonhar. Não me sentia ainda satisfeito com a destreza do meu bisturi. Tive de reforçar a coragem para começar o meu trabalho. Graças aos anos eles me disseram que eu era capaz.

Foi então que me casei. Não satisfeito ainda com a nova fase da vida sobrevieram os filhos. Foram dois os nascidos.

Passaram-se anos. Envelheci.

Ainda não satisfeito com a idade nova pensei em mudar de vida. Hoje faço de conta que os anos não pesam tanto. Exercito-me como se fosse jovem. Caminho, corro, nado, escrevo, agora me sinto quase satisfeito com aquilo que a vida me fez presente.

Faltava-me um pequeno detalhe. Netinhos que pudessem brincar comigo.

Agora tenho três lindos meninos. Eles me completam.

Já pensei em voltar no tempo. Agora não penso mais.

Já conquistei quase tudo.

Tenho uma linda familia. Tanto aquela que me precedeu quanto aquela que veio depois.

A satisfação que a gente conquista depende do ponto de vista.

Antes queria mais. Ganhar dinheiro. Conquistar o mundo. Quem sabe comprar um latifúndio?

A satisfação que agora me acarinha é o máximo que me permito ter.

Simplesmente vivo. Feliz da vida por tudo que Deus me deu.

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