A velha casa da jabuticabeira no fundo do quintal

De tempos pra cá tenho dormido apenas metade da noite.

Na outra me assaltam velhas recordações.

Também durmo antes das vinte e uma horas. As onze pra mim já passa da meia noite.

Não ouço o galo cantar. Pra quê?  Já tenho um despertador automático. Ele me acorda sempre a mesma hora. Precisamente as seis e um cadinho já me ponho de pé.

Tenho, cá comigo, já disse de outras vezes, que, a partir de certa idade considero a noite um desperdício. Pra que ficar oito horas inteiras na escuridão? Sem nada a observar. Os pássaros cantarem. A chuva cair. O sol nascer. As flores sorrirem.

Prefiro o clarume do sol às trevas. Confesso ter medo da noite. E se por acaso não acordar? Se o sono continuar a ofuscar a vida linda que tenho levado? Daí a minha predileção pela luz do dia. Hoje mesmo, outono em seu começo, que dia maravilhoso amanheceu neste vinte e dois de março.

As jabuticabeiras têm me acompanhado desde a tenrice dos anos.

Quando a elas fui apresentado era quase uma menino. Foi na rocinha das minhas tias avós, na linda fazenda da Cachoeira, município de Perdões, terra da minha querida mãe e da minha avó Belica, quando aprendi que chupar jabuticaba no pé, subindo por aqueles galhinhos finos e resistentes, é muito melhor que deliciar-me com as frutas já colhidas. Vendidas em feiras livres ao final do ano. Pois a partir de novembro, caso a chuva seja benevolente, aquelas frutinhas com sabor de Minas aparecem. Logo amadurecem.  E nos permitem provar aquele sumo doce como o beijo de uma mãe.

Outra vez, se não me fracassa a memória, foi na fazenda do tio Zito. Irmão do meu saudoso pai. Logo aqui perto. Na localidade das Três Barras; berço da familia dos Abreus.

Mas o pé de jabuticaba que merece menção morava aqui pertinho. Nos fundos da casa dos meus avós Rodartes.

Era ali que os primos se reuniam. Minha avó Belica plantava rosas alaranjadas no seu jardim suspenso. Eram canteiros que olhavam a Rua Costa Pereira com olhos de pura saudade. De quando ali viviam meu avô Rodartino e sua amada esposa. Quitandeira de mancheia.

Aquela velha morada um dia foi demolida. Levei tijolo por tijolo, janela por janela, telha por telha, porta por porta, na intenção de construir minha casa na roça.

A jabuticabeira não escapou do desaterro. Dela não sobrou galho sobre tronco. Aquelas frutinhas doces acabaram sendo transferidas junto aos meus avós para um lugar ainda por mim desconhecido. Imagino ser o céu azul que se faz hoje.

Tomara que no céu, onde moram anjos, alguém tenha se lembrado de plantar um pé de jabuticaba. Quem sabe alguma mudinha daquela mesma jabuticabeira tenha sido replantada no azul celestial.

Ainda me lembro, saudades não me faltam, de quando nos reuníamos todos ao pé daquela jabuticabeira miúda. Creio que foi meu querido avô Rodartino que a plantou.

Tempos depois, noutra casa, daquela mesma rua, outro pé de jabuticaba renasceu.

Agora lá só restam dois lotes vazios. Acabaram, na intenção de construir um edifício, levando aqueloutro pé de jabuticaba pra onde não sei.

Na minha infância existiam muitas jabuticabeiras. Subia aos pés disputando aquelas frutinhas pretinhas com os marimbondos. Era uma pra mim, as sobras destinava a eles.

Já hoje, nesta idade longeva, ainda tenho a satisfação de chupar jabuticabas na roça que tanto amo. Não vejo a hora de dezembro chegar.

Serão dois presentes de aniversário. Espero passar o dia sete chupando jabuticabas noutros pés. Pena que não tenho meus pais e avós ao meu lado.

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