O dia em que Tião Micuim virou estrela

Hoje, neste dia fresco, começo de outono, quando quase se despede o verão, acordei com uma coceirinha esquisita na dobra do braço.

Era um carrapatinho miudinho. Escurinho, atarracado a minha pele fina, sugando meu sangue. Foi preciso retirá-lo a força, sem pedir licença, para que elezinho dali se desgrudasse, deixando uma marquinha vermelha, uma coceirinha que vai perdurar por dias inteiros, e dele vou me recordar como de um amigo da roça, escurinho como ele, de nome Sebastião, apelidado por Tião Micuim, dada a sua parecença com o tal carrapatinho que infesta a pastaria nestes dias quentes, como foi este verão chuviscoso.

Assim que me livrei do tal carrapatinho grudento veio-me a lembrança aquele velho amigo.

Ele foi meu retireiro. Nos velhos tempos quando ainda começava a vida de produtor de leite. Graças a Deus já estou livre de tal desgraça. Pois aprendi, após mais de trintanos na lida, que leite só dá lucro aos olhos do dono. E mesmo assim sujeito a chuvas e trovoadas, pois a cada dia o leite muda de preço. Naquele sobe e desce dependendo da estação em que nos encontramos.

Quem pensa que vaca dá leite está redondamente equivocado. Leite tem de tirar. Acordar ao nascer do sol, depois de uma noite curta, faça chuva ou esquente o sol, tratar bem da vacada, ter um silo a disposição, não importa se choveu no tempo certo, o milho picado tem de estar bem sepultado no buracão, e, antes que ele azede o dono da vaca, recém-parida num matinho esquecido onde foi que o bezerrinho nasceu, e, ainda por cima tem de rezar para não faltar energia, de vez em quando acontece, pois, durante a chuva que caiu na noite passada um raio que o parta partiu a fiação desprotegida, mesmo assim a conta alta da energia nunca atrasa, e se não paga é desligada, não importa a reclamação.

Ainda me lembro com saudades do velho amigo, retireiro madrugão, que costumava beber uma canjibrina, pinga das piores, para esquecer o velho amor que um dia se bandeou com o motorista do caminhão leiteiro, e dela ainda se recorda com os olhos rasos d’água, como se fosse um bem maior perdido, graças ao bem Deus com ela não teve filhos.

Isso já faz um montão de anos.

Quando estava na cidade, entregue aos meus afazeres de médico especialista, me avisaram pelo telefone que o velho amigo havia sofrido uma picada de cascavel na canelinha fina.

Foi trazido às pressas pra cidade. Foi internado quase agonizante. Graças ao bom Deus de sempre ainda não foi desta vez que ele viajou ao céu.

Passou maus bocados. Recebeu alta bem melhorado.

Levei-o de volta a nossa rocinha perdida nos cafundós da cidade de Ijaci.

Tião Micuim ainda me serviu por anos a fio. Aposentou-se depois de mais de trintanos ao meu lado. De vez em sempre o pilhava meio atordoado. Nunca deixou a canjibrina. Graças aos meus conselhos, nem sempre seguidos, passou a tomar uma pinga mais conceituada.

Foi naquele ano trágico, quando veio a tal pandemia, no começo da doença, naquele final de semana passado, quando fui ter a minha rocinha, não encontrei, no lugar de sempre, o velho amigo Tião Micuim.

No curral ele não estava. Carpindo o sarandi não o encontrei. Embriagado, desta vez não foi.

Depois de intensa e malograda procura, por indicação de um vizinho de pasto, descobri o paradeiro do velho retireiro Tião Micuim.

Seu corpinho inerme estava escondido num matinho perto.

O velho Tião resolveu partir para o céu naquela noite enluarada.

Pra mim o amigo Tião Micuim havia se transformado num graúdo carrapato estrela.

Uma das estrelinhas que enfeita a via láctea. Daqui a posso admirar. Numa noite escura.

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