Como amo a roça e a gente boa que vive por lá.
Pode não ter internet. Pode que a televisão não pega bem. Que a dona Conceição anda espalhando boatos. Que falar da vida alheia pode ser costume difícil de tirar. Que quando a gente desconhece qual seja uma boa vaca o incauto da cidade pode levar manta. Que as catiras são feitas a luz da tarde, quando o sol se põe. Que qualquer inverdade seja transformada em juro que vi. Que assombração não se mostra na lua nova. Que jabuticaba deve ser chupada no pé depois de uma chuva mansa. Que saracura não cura nada. Dizem, por lá, que capado gordo só da lucro quando morre. Que galinha canta não só para anunciar o nascer do ovo. Bem como do assalto ao ninho do gambá.
Mesmo assim a vida na roça me encanta. Como soa bem aos meus ouvidos o canto do sabiá. Comer goiabada feita naquele tacho de cobre, acompanhada de queijo de minas, não só me faz salivar como pode engordar.
Nas bandas da minha rocinha prejuizenta, agora não tanto, já que foi arrendada, mora um tal de Geraldo da dona Nega. Cara fechada e coração de ouro. Foi com ele que aprendi, depois esqueci, o porquê de o leite ser branquinho, mesmo saído da vaca preta. Que vaca só dá leite aos olhos do dono. Se deixada a Deus dará a pobre coitada pode perder a cria.
Ali pertinho, depois da porteira, vive um tal de Zé Peleja. Caboclo ruim de negócio e bom de braço. Um dia vi, e desconjuro quem diz que não foi verdade, durante uma visitinha a minha roça, no buraco do silo morava uma cascavel com mais de dez guizos no rabo. Era tão grande que media mais de trinta palmos esparramados. De uma enxadada só partiu ela ao meio. Até hoje não me esqueço daquele ato tresloucado. Desde então nunca mais o vi.
Outro vizinho de cerca tem o nome de Tiãozinho da Dona Vanda. Mais magricela que bambu fininho. Ele mora nas vizinhanças de outro amigo chegado. E como admiro aquele senhor espigado. No alto dos seus muitos anos seu Zé Antônio ainda é enxadachim de primeira. Só anda de pé. Nunca o vi pedindo carona até a cidade perto. Outra pessoinha por quem tenho a maior admiração é o bom Correinha. Ele já foi personagem principal de um livro meu. Aquele romance cujo cenário é a minha roça. Quem não o leu não sabe o que perdeu. Seu titulo é: Madest, A Moça Alegre do Sorriso Triste. Já esgotado.
Por ali tenho outros amigos. O velho Nicanor faz parte desta listagem. Ele tem fama de arreliento. Mas só da cara pra fora.
Na roça, chifres estão fora de moda. Não aqueles apetrechos que podem ser confundidos com quem atraiçoa o parceiro. Vaca chifruda pode engastalhar na cerca de arame farpado. Além de ser um estrupício que desencanta sua formosura.
Daí a necessidade de sapecar o chifrinho logo que o bezerro nasce. Se for gabiru tanto faz. Mas uma feminha dá dó vê-la crescer chifrudinha. Mochar, retirar o arremedo de chifres, que ainda vai nascer, não só evita o confronto entres os animais adultos, ferir durante as contendas, como confere um aspecto mais bonito à vaca depois de adulta.
Já o chifre na cidade tem outra conotação. Ele não só é uma desfeita naquele que foi passado pra trás. Como pode ser caso de contravenção aos bons costumes.
Na minha roça chifres, com o segundo significado, é mal que pode ser curado através de tiros com endereço certo. Ai daquele que comete o tal pecado. Pode se considerar defunto morto. Sem que ninguém se compadeça de tal ato mais que justificado.
Outro vizinho, sobre o qual me contaram o causo, recebeu, logo ao nascimento, o nome de Zito.
O pobrezinho nasceu nanico. Meio manquitola, esquisito. Dai o seu epíteto de Zito Pintor de Rodapé.
Só que ele cresceu com a fama de pulador de cerca alheia. Coisa que não o desmerecia. Ao revés.
Seu Zito era puro de igreja. Vivia no confessionário. Rezador de mancheia.
Acontece que um dia, de lua cheia, apareceu nos arrabaldes, uma morena de encher os olhos.
Era toda ela curvas. Uma cinturinha de fazer corar as moçoilas casadoiras. Um traseiro de fazer coçar a orelha. Pernas grossas o bastante para não caber nas calças apertadas. Um delírio de mulher.
Seu Zito, já casado, e bem, com uma mulher com todos os predicados, acabou se apaixonando pela rapariga.
Assim que nela pousou os olhos logo se apaixonou. Largou tudo que tinha e foi atrás daquela prenda.
Mudou de vida. E pra pior. A fulana, safada, mulher interesseira, só tinha olhos para as posses modestas do pobre Zito.
E ele ficou a ver navios naquela seca em pleno verão,
Quando passei por ali, numa tarde de sábado, de volta pra cidade, encontrei o compadre Zé Antônio assentado na mesma pedra dura, logo à porta de sua porteira.
Queria saber as novidades. Embora soubesse do causo do infeliz Zito. Que não só perdeu a mulher, como ficou perdido num mato sem cachorro.
Diziam, por ali, que, quando aconteceu incidente, da perda da esposa do Seu Zito, para um outro pretendente, assim que o infeliz deixou a mulher, ainda atraente, a sós, apareceu um vizinho, solteirão, bem apessoado. Com ela passou a morar. Na mesma casa de dantes. A rocinha do Seu Zito mudou de dono. Ele não só perdeu a mulher legítima como perdeu a identidade.
A fama de chifrudo se estendeu por aí afora.
E ainda dizem que chifre trocado não dói. Experimente!
Corre a boca solta um dito maldito: “parece que vão mochar o Seu Zito”.